Síndrome da impostora expõe adoecimento feminino no trabalho mesmo após avanço da NR-1

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Inclusão dos riscos psicossociais na norma trabalhista amplia responsabilidade das empresas, mas mulheres seguem liderando índices de ansiedade e exaustão

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), promovida pelo Ministério do Trabalho, passou a reconhecer oficialmente os riscos psicossociais no ambiente corporativo. A medida obriga empresas a identificarem e gerenciarem fatores como sobrecarga, assédio moral e pressão excessiva por metas. No papel, o avanço é significativo. Na prática, porém, mulheres continuam figurando entre as principais afetadas por ansiedade, depressão e burnout no trabalho.

Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que mulheres apresentam maior prevalência de transtornos de ansiedade e depressão em comparação aos homens. Em contextos laborais, estudos internacionais também apontam maior incidência de afastamentos femininos por estresse e esgotamento — cenário que reforça o debate sobre a dimensão estrutural do adoecimento.

Para a psicóloga Danny Silva, o reconhecimento dos riscos psicossociais na NR-1 abre espaço para uma mudança de narrativa.

“Durante muito tempo, o sofrimento emocional feminino foi interpretado como fragilidade individual. Quando a norma reconhece o risco psicossocial, ela desloca o foco para a responsabilidade da estrutura organizacional”, afirma.

A engrenagem invisível da síndrome da impostora

Um dos fenômenos mais presentes nesse cenário é a chamada síndrome da impostora. O termo foi descrito em 1978, ao observar mulheres de alto desempenho que, mesmo diante de evidências concretas de sucesso, sentiam-se fraudes. Embora não seja classificada como transtorno mental, a condição está associada a baixa autoestima, ansiedade crônica e maior risco de esgotamento.

Segundo Danny Silva, o fenômeno não surge de forma isolada.

“A mulher aprende que precisa ser perfeita para merecer espaço. Que não pode errar e não pode demonstrar fragilidade. Esse padrão vira uma estratégia de sobrevivência dentro de ambientes que exigem excelência constante.”

A consequência é um ciclo silencioso: para compensar a sensação de insuficiência, muitas profissionais assumem jornadas prolongadas, evitam pedir ajuda e naturalizam ambientes tóxicos.

Quando a autocrítica vira risco psicossocial

A NR-1 determina que empresas passem a mapear fatores como:

  • Sobrecarga de trabalho
  • Pressão contínua por desempenho
  • Falta de clareza de função
  • Ambientes hostis ou competitivos
  • Conflitos interpessoais constantes

Para a especialista, o critério não está na intensidade da meta, mas no impacto prolongado sobre o organismo.

“O risco psicossocial começa quando a ansiedade não desliga nem fora do expediente, quando o descanso gera culpa e quando o erro passa a representar ameaça à própria identidade profissional.”

Entre os sintomas mais comuns relatados por mulheres estão insônia, taquicardia, tensão muscular constante, irritabilidade seguida de culpa, sensação persistente de incompetência e cansaço que não melhora com descanso.

“O corpo começa a pagar a conta do silêncio”, pontua Danny Silva.

Estrutura ou fragilidade?

Além da dupla ou tripla jornada, mulheres frequentemente acumulam uma sobrecarga emocional invisível no trabalho — mediando conflitos, sustentando relações e absorvendo tensões da equipe. Esse trabalho relacional raramente é mensurado, mas impacta diretamente a saúde mental.

“A síndrome da impostora não é fraqueza. É sintoma de um sistema que ainda opera com desigualdade simbólica. Quando a mulher acredita que precisa merecer descanso, o risco psicossocial já está instalado”, analisa.

O que muda — e o que ainda precisa mudar

Com a atualização da NR-1, empresas passam a ter responsabilidade ativa na gestão dos riscos psicossociais, o que inclui diagnóstico real do ambiente e planos contínuos de prevenção.

Para Danny Silva, no entanto, nenhuma legislação transforma cultura sozinha.

“A norma abre uma porta institucional importante. Mas enquanto a cultura valorizar disponibilidade total e performance acima da saúde, o adoecimento continuará sendo interpretado como falha individual.”

A discussão sobre síndrome da impostora, portanto, ultrapassa o campo da autoconfiança. Ela revela como estruturas organizacionais podem sustentar ciclos de exaustão feminina sob o discurso de alta performance.

A pergunta que emerge não é se as mulheres precisam ser mais fortes.
É se os ambientes de trabalho estão preparados para sustentar a saúde mental de quem entrega resultados todos os dias.

Sobre Danielle Silva
Danny Silva é psicóloga (CRP 05/67277), especialista em terapia sistêmica familiar e em gestão de riscos psicossociais conforme a NR-1. Com uma abordagem humanizada, atua no acompanhamento de famílias, indivíduos e profissionais, auxiliando na superação de desafios emocionais e comportamentais, especialmente aqueles relacionados ao ambiente de trabalho e às dinâmicas organizacionais. Seu trabalho promove autoconhecimento, fortalecimento das relações interpessoais e construção de ambientes emocionalmente mais saudáveis.

📲 Instagram: @psi.dannysilva

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