*Por Janaina Moreira, diretora de Gente e Gestão da Invent Software
Durante anos, saúde mental no ambiente corporativo foi tratada como tema de cultura organizacional, benefício ou discurso institucional. Agora, ela passou oficialmente para outra categoria: risco corporativo.
Com a atualização da NR-01, norma do Ministério do Trabalho que regula saúde e segurança ocupacional no Brasil, fatores psicossociais como estresse crônico, assédio moral, sobrecarga e ambientes emocionalmente inseguros passam a integrar o gerenciamento de riscos das empresas. Na prática, isso muda o lugar da saúde mental dentro das organizações.
Ela deixa de ser uma pauta “do RH” e entra definitivamente na agenda estratégica dos negócios.
A mudança representa um avanço importante, mas também escancara uma realidade que muitas empresas ainda evitam enfrentar: modelos de liderança baseados em pressão contínua, hiperdisponibilidade e performance a qualquer custo começaram a gerar um passivo humano, e financeiro, difícil de sustentar.
Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Dados divulgados pelo Ministério da Previdência Social e repercutidos pela Faculdade Unimed apontam que o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por questões de saúde mental em 2025, o maior número da última década.
Os transtornos mentais já aparecem entre as principais causas de afastamento do trabalho no país, segundo levantamento divulgado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-4).
E existe um recorte importante dentro dessa discussão: as mulheres, especialmente aquelas em posições de liderança.
Durante muito tempo, mulheres líderes precisaram equilibrar alta performance com uma cobrança silenciosa por validação constante. Não bastava entregar resultado. Era preciso administrar expectativas emocionais, pressão estética, necessidade permanente de provar competência e, muitas vezes, jornadas invisíveis fora do expediente.
O problema é que esse desgaste raramente aparece nos indicadores tradicionais das empresas, até que ele explode em afastamentos, pedidos de demissão, burnout ou perda de talentos estratégicos.
Por isso, saúde mental e liderança feminina deixaram de ser apenas pautas de diversidade. Hoje, elas começam a ocupar espaço em discussões sobre governança, compliance e gestão de riscos.
A atualização da NR-01 acelera esse movimento ao exigir que empresas identifiquem, monitorem e previnam riscos psicossociais dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso inclui desde ambientes tóxicos até culturas de gestão baseadas em medo, pressão permanente e ausência de segurança psicológica.
Muitas organizações ainda tratam a saúde mental como benefício corporativo. Mas o mercado começa a mostrar que ela já deve ser encarada como infraestrutura operacional.
Porque empresas emocionalmente adoecidas custam caro.
Custam em turnover, afastamentos, perda de produtividade, passivos trabalhistas e desgaste reputacional. Também impactam a performance, a retenção de talentos e a competitividade.
Segundo pesquisa da Gallup State of the Global Workplace, os níveis globais de estresse no trabalho seguem elevados, especialmente entre mulheres em cargos de gestão.
Nesse contexto, lideranças mais empáticas, colaborativas e orientadas pela escuta passam a ganhar relevância estratégica dentro das organizações. Diversos estudos já demonstram que ambientes psicologicamente seguros aumentam engajamento, colaboração, aprendizado coletivo e capacidade de performance. Um dos exemplos mais conhecidos é o “Project Aristotle”, conduzido pelo Google, que identificou a segurança psicológica como o principal fator por trás de equipes de alta performance. A conclusão ajuda a explicar por que empresas passaram a tratar saúde emocional não apenas como pauta de bem-estar, mas como variável estratégica de produtividade, competitividade e sustentabilidade dos negócios, justamente um dos pilares reforçados pela nova NR-01.
Mas existe um ponto central nessa discussão: não basta ampliar a presença feminina na liderança sem transformar a estrutura ao redor dessas profissionais.
Muitas mulheres acabam absorvendo emocionalmente conflitos, cobranças e responsabilidades de forma intensa, especialmente em culturas corporativas que ainda associam liderança à resistência permanente e à disponibilidade absoluta.
Sem suporte organizacional, a conta inevitavelmente chega.
Por isso, adaptar-se à NR-01 não significa apenas cumprir uma obrigação regulatória. A mudança exige revisão profunda da cultura corporativa, preparo das lideranças, monitoramento contínuo de riscos psicossociais e construção de ambientes onde a segurança emocional seja tratada com a mesma seriedade da segurança física.
A diferença é que, desta vez, empresas que ignorarem essa transformação provavelmente pagarão mais caro do que aquelas que se anteciparem a ela.
Ambientes saudáveis deixaram de ser diferencial competitivo, para se tornarem requisito básico de sustentabilidade empresarial.
*Janaina Moreira é diretora de Gente e Gestão da Invent Software, líder no desenvolvimento de softwares complementares aos ERPs que otimizam a gestão fiscal, financeira, de contratos, recursos humanos, inteligência de dados e comércio exterior das empresas. Com mais de 4 mil clientes no Brasil e em outros países ao redor do mundo, as soluções da Invent transacionam cerca de R$350 bilhões de reais por ano – o equivalente a quase 3% do PIB brasileiro. Saiba mais em:inventsoftware.com.br





