Pré-estreia de “Liamba, um Santo Remédio” resgata memória de Cruzeta e amplia debate sobre plantas medicinais

WhatsApp
Facebook
X
Threads
Telegram

Documentário revisita episódio que marcou a história do município e reúne moradores, pesquisadores e profissionais da saúde em torno da memória, da cannabis medicinal e do combate ao preconceito.

A cidade de Cruzeta, no Seridó potiguar, foi palco de um evento histórico durante a programação da Festa da Colheita, em julho de 2026. O Circuito Liamba reuniu moradores, profissionais de saúde, pesquisadores e realizadores para discutir Cannabis medicinal, saúde e direitos conduzidos por profissionais da Associação Reconstruir Cannabis Medicinal com a aguardada pré-estreia do documentário “Liamba, um Santo Remédio”. O evento teve como objetivo não apenas apresentar o filme, mas também propor um diálogo sobre memória, desinformação, cultura popular e os desafios que ainda cercam o debate sobre o uso de plantas medicinais.

O projeto foi desenvolvido e dirigido por Luara Schamó e Manoel Batista, ao longo de cinco anos e foi realizado pelas produtoras Nave Mãe e Remar Produções. A equipe inclui ainda a produtora executiva Renata Marques, a diretora de produção Ricelly Sousa e o produtor local Jean Araújo, que é morador da cidade e foi sua primeira experiência fazendo cinema. A direção de fotografia é assinada por Thamise Cerqueira (DAFB), o som por Marina D’Lourdes, a montagem de Marília Clara Albuquerque, e uma série de profissionais como Gabriel Souto e Gabriela Barbalho. A história do filme é recontada por Renilda Medeiros, Jerusa Ferreira, Túlio Madureira, Manoel de Medeirinhos e outros. A obra faz uma releitura do famoso episódio ocorrido em Cruzeta no ano de 1996, quando a planta liamba (Vitex Agnus-castus) foi confundida com maconha (Cannabis sativa), gerando investigação policial, repercussão nacional no programa Fantástico e, posteriormente, memes na internet.

A diretora Luara Schamó expressou que a exibição representou a concretização de um longo processo de escuta e construção coletiva. Emocionada, ela afirmou que gostaria que o microfone captasse as batidas do seu coração ao ver a reação do público diante do filme. Segundo Luara, abordar um tema ainda cercado de medo e preconceito exigiu sensibilidade e respeito à história da comunidade. Ela ressaltou que algumas pessoas preferiram não conceder entrevistas justamente porque ainda convivem com esse receio. Ao mesmo tempo, destacou a abertura da população para participar do projeto e contribuir com a reconstrução dessa memória coletiva. A diretora também chamou atenção para os desafios de produzir cinema no interior do país. Apesar da dificuldade, ela define o documentário como uma missão construída por muitas mãos.  “Somos contadores de história e nosso papel nada mais é do que abrir os ouvidos e o coração para ouvir essas histórias e tentar contá-las com respeito e carinho”, acresceu.

O codiretor Manoel Batista compartilha do mesmo sentimento. Para ele, revisitar um tema ainda delicado para os moradores despertou apreensão desde o início da produção. “Causa um frio na barriga porque é um filme que traz um tema um pouco espinhoso para a cidade”. Segundo Batista, a recepção do público durante a pré-estreia mostrou que era possível revisitar aquele acontecimento sem reforçar estigmas. “Foi muito gostoso recontar esta história a partir de outro prisma, não do preconceito, não do tabu, mas de uma forma leve, moderna, mostrando os benefícios que as plantas medicinais têm para a comunidade”, avaliou.

Para Jean Araújo, produtor local do documentário e morador de Cruzeta, participar do projeto foi motivo de grande satisfação. Ele relatou o sofrimento dos moradores da cidade causado pelo estigma de “cidade da maconha” após o episódio de 1996 e celebrou a oportunidade de mostrar outra versão dos fatos, trinta anos depois, mostrando que sua cidade é a “Terra da fé e da música”, declarou.

 A produtora executiva Renata Marques celebrou a conclusão da produção e a oportunidade de revisitar essa história: “É incrível a gente estar podendo recontar esta história. Eu fiquei muito honrada com a equipe dos diretores e muito feliz”.

O impacto do evento para as participantes do filme e da comunidade foi evidenciado nos depoimentos de Jerusa Ferreira e Renilda Medeiros. Jerusa classificou a noite como histórica por contribuir para desmistificar, com base em pesquisas, a reportagem exibida pelo Fantástico em 1996 sobre a suposta plantação de maconha em residências, na delegacia e nas praças da Cruzeta. 

Segundo ela, o documentário demonstra que a planta em questão era, na verdade, a liamba. Já Renilda destacou a importância da exibição por trazer à tona um tema que, durante muitos anos, despertou receio entre os moradores, permitindo que essa história seja conhecida pelas novas gerações, abrindo espaço para que novos relatos sobre o assunto venham à tona.

Para Túlio Madureira, participante e morador da cidade de Cruzeta, o evento ressaltou a relevância da obra ao evidenciar os benefícios da liamba para os fins medicinais e ao alargar o conhecimento sobre o tema, mostrando como esse saber pode transformar a vida das pessoas que dependem desse tipo de tratamento.

Com ampla participação da comunidade, o evento marcou um novo capítulo para Cruzeta ao promover reflexões e ampliar o debate sobre a história retratada no documentário.

O documentário tem alcançado ampla repercussão e procura para exibições. Em breve, serão divulgadas as seleções de festivais de cinema que o documentário foi escrito e as respectivas participações.

O documentário foi produzido pela Nave Mãe Criações e Remar Produções, o filme “Liamba, um Santo Remédio” integra ações de formação, memória e circulação cultural que aproximam audiovisual, território e participação comunitária. O projeto reafirma o compromisso das produtoras com as narrativas que valorizam a cultura, os saberes populares e as histórias do Rio Grande do Norte.

WhatsApp
Facebook
X
Threads
Telegram
Categorias