Vanguarda nordestina
Laíza Felix – Instituto do Cérebro/UFRN
Os estados alterados da consciência, sejam espontâneos ou induzidos, sempre acompanharam a caminhada do ser humano sobre a Terra. O domínio de substâncias que conseguem alterar a mente também não é recente, mas a investigação estruturada sob o método científico moderno não tem tanto tempo de documentação assim. Se definirmos o marco inicial da pesquisa com os chamados psicodélicos em 1938, quando o químico suíço Albert Hofmann criou a dietilamida do ácido lisérgico (LSD); então, podemos falar em menos de cem anos de estudos na área.
É de se imaginar, portanto, que as pesquisas com e sobre psicodélicos que são realizadas por todo o mundo ainda não estão reunidas. Um campo de estudo tão recente implica em muitas perguntas para se responder, caminhos possíveis para seguir e oportunidades para conquistar.
Uma iniciativa publicada em abril deste ano no periódico Nature Medicine é um excelente exemplo disso. O artigo intitulado An international mega-analysis of psychedelic drug effects on brain circuit function foi assinado por 27 autores, sendo apenas dois brasileiros: o professor Dráulio Araújo e a neuroengenheira Fernanda Palhano-Fontes, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe/UFRN), que há mais de dez anos estudam os efeitos de psicodélicos para a depressão resistente ao tratamento convencional.
A revisão analisou onze conjuntos de dados independentes de ressonância magnética funcional (fMRI) em estado de repouso. “A fMRI é uma técnica de neuroimagem amplamente utilizada, pois permite inferir a atividade cerebral de forma não invasiva e com boa resolução espacial. No entanto, ela não é obrigatória nem padrão em todos os estudos clínicos com psicodélicos. Muitos trabalhos focam apenas em desfechos clínicos e subjetivos”, explicou Fernanda.

Todas as imagens foram obtidas de voluntários saudáveis, que não apresentavam nenhuma condição clínica. Os estudos tinham como objetivo investigar os efeitos de cinco drogas psicodélicas — psilocibina; dietilamida do ácido lisérgico (LSD); mescalina; N,N-dimetiltriptamina (DMT); e ayahuasca — em grupos de pesquisa localizados em três continentes e cinco países diferentes.

Reconfigurando a conectividade
No Brasil, apenas a pesquisa liderada pelo professor Dráulio foi selecionada para integrar o artigo. “Os dados coletados no estudo foram obtidos com a ayahuasca. Outros grupos também usam a fMRI para investigar substâncias psicodélicas, mas, neste caso, apenas o nosso grupo possuía dados no formato de interesse para essa análise”, comentou Dráulio, cuja pesquisa atual está centrada nos efeitos do DMT.

O professor ainda explicou que, de maneira geral, o estudo mostrou que os psicodélicos aumentam a comunicação entre diferentes redes do cérebro, especialmente entre áreas envolvidas na cognição e na percepção. Ou seja, os psicodélicos promovem uma reconfiguração da conectividade entre diferentes regiões do cérebro, tornando a atividade cerebral mais integrada e menos rígida.
“Não foi realizada nenhuma análise específica por nacionalidade, e sim por substâncias. A ayahuasca apresentou um padrão distinto dos demais psicodélicos: enquanto outras substâncias aumentaram a conectividade entre redes, ela mostrou, predominantemente, reduções, especialmente nos sistemas sensório motores, límbicos e subcorticais, com poucos aumentos consistentes. Esse perfil pode refletir tanto a maior complexidade farmacológica, por combinar DMT com inibidores de MAO, quanto fatores metodológicos, como o pequeno tamanho amostral e diferenças no desenho experimental, o que limita as comparações diretas”, explicou Fernanda.
Contribuição para novas pesquisas
Este foi o primeiro estudo do tipo já conduzido e forneceu uma síntese mais abrangente da ação dos psicodélicos no cérebro até o momento, ajudando a resolver inconsistências e oferecendo um mapa probabilístico de como os psicodélicos alteram a organização cerebral em larga escala. O levantamento realizado criou uma base para orientar e direcionar futuras pesquisas em neuroimagem com psicodélicos.

A produção do artigo levou à criação de um consórcio que reuniu diversos grupos internacionais que atuam na pesquisa com psicodélicos. “O consórcio foi criado inicialmente com o objetivo de conduzir a análise cujos resultados acabam de ser publicados. Outras análises podem ser feitas com base nos mesmos dados, mas, no momento, não há nada em andamento. Também não há, por ora, previsão de inclusão de novos conjuntos de dados. A participação do nosso grupo reflete a inserção e a contribuição do trabalho realizado no Brasil nesse contexto”, comemorou o professor Dráulio.
Para Fernanda, “o estudo contribui para dar maior consistência a um campo ainda bastante fragmentado. Até então, os estudos com psicodélicos e neuroimagem eram, em geral, pequenos e, frequentemente, apresentavam resultados divergentes. Ao reunir dados de diferentes países com o mesmo método analítico, essa análise permite identificar padrões mais robustos de ação dos psicodélicos no cérebro. Para o nosso grupo, representa um marco em uma trajetória de cerca de duas décadas, evidenciando a qualidade e a relevância da pesquisa em desenvolvimento”, conclui. LEIA NO PORTAL UFRN





