Estratégia invisível das matas
Paiva Rebouças – Agecom/UFRN
A coloração dos frutos funciona, na natureza, como um anúncio luminoso para atrair aves e mamíferos responsáveis pela dispersão de sementes nas florestas. No entanto, até recentemente, o significado da variação de tons ao longo do amadurecimento e a presença simultânea de diferentes cores na mesma copa permaneciam sem uma explicação precisa. Para compreender esse mecanismo, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) investigaram 12 espécies da família Myrtaceae, incluindo frutos populares como a pitanga e o araçá, em fragmentos florestais litorâneos do Rio Grande do Norte.
A principal descoberta foi a confirmação de que as sementes dessas plantas atingem a maturidade fisiológica e elevada capacidade de germinação muito antes de o fruto mudar de cor ou de a polpa se tornar doce, fenômeno conhecido como ‘atraso visual’. O resultado revela uma estratégia evolutiva fundamental: a planta antecipa o desenvolvimento da semente para ampliar sua janela de dispersão, aumentando as chances de estabelecimento de uma nova árvore quando os animais consomem os frutos ainda imaturos, situação que pode ocorrer em períodos de escassez de recursos na floresta.

O estudo foi publicado na revista Oikos por meio do acordo de acesso aberto entre a CAPES e a editora Wiley, iniciativa do governo brasileiro que isenta os pesquisadores do pagamento da taxa de processamento de artigos (APC). Financiado pelo Instituto Serrapilheira, o trabalho teve como primeira autora Hercília Freitas da Cunha, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PGE/UFRN). O projeto contou com a colaboração de Eduardo Luiz Voigt, professor do Departamento de Biologia Celular e Genética (DBG/UFRN), e de Eliana Cazetta, professora do Departamento de Ciências Biológicas da UESC. A coordenação ficou a cargo da professora Vanessa Graziele Staggemeier, do Departamento de Ecologia (Decol/UFRN), cuja equipe realizou as coletas de campo entre março de 2022 e maio de 2023 em oito áreas de preservação compostas por formações de restinga e florestas de tabuleiro.
Os pesquisadores dividiram as amostras de frutos em três fases de desenvolvimento: imaturos, caracterizados pela coloração verde e consistência rígida; intermediários, que já apresentavam o tamanho final, mas exibiam cores de transição; e maduros, identificados pela coloração definitiva e pela polpa amolecida. Para testar a capacidade reprodutiva das plantas, os cientistas removeram a polpa dos frutos, desinfetaram as sementes e as acondicionaram em rolos de papel umedecido. Esses rolos foram mantidos em estufas de crescimento com temperatura constante de 28 °C e fotoperíodo de 12 horas diárias.

O acompanhamento diário registrou o momento em que a radícula rompeu o tegumento da semente, marcando o início da germinação. Os testes comprovaram que as sementes estão aptas a originar novas plantas antes mesmo de a casca do fruto mudar de cor. Quase todas as espécies analisadas apresentaram taxas médias de germinação de aproximadamente 77% ainda nessas fases iniciais.
A única exceção foi o cambuí (Myrcia multiflora), cujas sementes verdes apresentaram baixo sucesso germinativo e só alcançaram maiores taxas de germinação quando os frutos atingiram a coloração preta característica da maturidade. Nas espécies que apresentam frutos de diferentes cores simultaneamente na mesma copa, como a pitangueira (Eugenia uniflora), os testes revelaram uma leve redução da qualidade das sementes nos estágios finais de maturação. Segundo os pesquisadores, esse fenômeno ocorre porque o acúmulo de açúcares solúveis nos frutos maduros aumenta a vulnerabilidade a patógenos e fungos capazes de comprometer a integridade das sementes.
Interação animal-planta
Para compreender o comportamento dos animais dispersores, os cientistas realizaram um experimento na vegetação natural da Escola Agrícola de Jundiaí utilizando 60 arbustos. Em cada planta, foram distribuídos 51 frutos artificiais confeccionados com massa de modelar atóxica. O experimento simulou copas unicolores, com frutos verdes e vermelhos, e copas multicoloridas, compostas por frutos verdes, amarelos e vermelhos. Após 72 horas de exposição, a equipe registrou as marcas de bicadas e a remoção dos frutos artificiais. Os resultados mostraram que os frutos vermelhos foram removidos com maior frequência em ambos os tratamentos, corroborando a hipótese da recompensa, segundo a qual a coloração final do fruto sinaliza maior disponibilidade de nutrientes.

Os pesquisadores também observaram que os animais removeram mais frutos das árvores que exibiam três cores simultaneamente do que daquelas com apenas duas. Esse resultado confirma que a diversidade de tonalidades aumenta o contraste visual na folhagem, facilitando a localização dos frutos pelos dispersores. Ao combinar maior atratividade visual com germinação antecipada das sementes, a planta prolonga o período de interação com os dispersores sem comprometer o desenvolvimento do embrião. Essa estratégia favorece a sobrevivência de sementes sensíveis à dessecação, que dependem de condições úmidas para germinar logo após serem dispersas.
O estudo também revelou diferenças nos ritmos de germinação entre os grupos analisados. Espécies do gênero Myrcia (cambuís) germinam mais rapidamente porque apresentam folhas embrionárias já desenvolvidas, prontas para crescer assim que entram em contato com o solo. Em contrapartida, espécies dos gêneros Eugenia (pitangas) e Psidium (araçás) podem levar semanas para iniciar a germinação. Enquanto o gênero Eugenia investe em sementes maiores e ricas em reservas nutritivas, Psidium produz sementes envolvidas por um revestimento mais rígido e protetor, o que torna o processo germinativo mais lento.
Os resultados da pesquisa oferecem subsídios importantes para projetos de restauração da Mata Atlântica. A constatação de que sementes viáveis podem ser obtidas de frutos que ainda estão em processo de mudança de cor permite otimizar o calendário de coleta em campo. Essa antecipação possibilita reduzir o tempo e os custos associados à colheita, além de ampliar a disponibilidade de material propagativo para a produção de mudas destinadas à recuperação de áreas degradadas. LEIA NO PORTAL UFRN





