Levantamento realizado por professora de Marketing da FGV, que estuda o comportamento humano no ambiente digital, analisou milhares de postagens entre os dias 31 de maio e 8 de junho
Desde o dia 31 de maio, poucos assuntos repercutiram tanto ou mais que o suposto avistamento de uma “nave espacial” no Paraná, registrado pelo influenciador digital Mayk Leão, entre os usuários brasileiros das redes sociais. Para além da curiosidade, o caso atiçou a crença de grande parte das pessoas que acompanharam os registros e seus desdobramentos. Um levantamento realizado pela doutora e professora de Marketing Digital da FGV, Lilian Carvalho, que estuda o comportamento humano nos ambientes digitais, mostrou que 25% dos usuários que comentaram o caso, entre os dias 31/5 e 8/6, adotaram tons de crença ou “engajamento crédulo”. Apenas 5% apresentam ceticismo explícito. Mas o que mais chamou a atenção foi o volume de posts com tons de ironia, humor e deboche, cerca de 28% das 56 mil menções coletadas pela Brandwatch e analisadas pela pesquisadora.
“O peso do “contexto neutro” é alto, mas, uma vez removido, o humor supera a crença em volume absoluto. Isso ajuda a explicar por que o evento circulou com tanta força. Ele ofereceu uma superfície ideal para a internet brasileira fazer o que faz de melhor, que é remixar, satirizar e redistribuir. O suposto ‘OVNI do Paraná’ não foi apenas um relato sobre luzes no céu, e sim um evento moldado pela arquitetura das plataformas, pelo incentivo à viralização, pela cultura do comentário instantâneo e pela economia da atenção”, avalia Lilian Carvalho.
Ela cita que, uma vez que o caso é viralizado, a identidade do avistador também se torna vetor de especulações e piadas, o que deslocou a discussão do fenômeno para a persona. Segundo ela, o caso deixou de ser apenas um suposto OVNI e se tornou uma peça de repertório cultural pronta para circular como meme.
“Isso revela uma característica fundamental da comunicação nas plataformas, em que a mensagem não é consumida em estado puro. Ela chega mediada por rótulos, emoções e sinais sociais de pertencimento. O público não apenas lê o conteúdo; ele também lê a reação dos outros ao conteúdo. Nesse ambiente, a ironia costuma vencer porque é uma linguagem de baixo risco, pois permite participar da conversa sem se comprometer totalmente com a crença, nem com a negação”, diz.
As manifestações da FAB e da ABIN reforçaram o ceticismo institucional, mas não encerrou a conversa. Para Lilian Carvalho, isso é típico de ambientes em que a confiança não é mais distribuída apenas por critérios de autoridade formal, e sim por afinidade comunitária e validação algorítmica. “Quando uma nota oficial disputa espaço com um vídeo viral, a disputa não é apenas factual, é também narrativa. E, no ambiente das plataformas, a narrativa com maior potencial de circular tende a ganhar mais visibilidade, independentemente de sua robustez explicativa”, afirma a pesquisadora, ressaltando que “a explicação oficial reduz o evento, enquanto a explicação extraordinária o expande”.
O episódio do avistamento do OVNI no Paraná, portanto, ensina menos sobre ufologia e mais sobre comportamento humano digital. Ele confirma que, nas plataformas, a mensagem raramente permanece estável, já que ela é reescrita pela forma de circulação, pelo repertório cultural do público e pelos incentivos do algoritmo. Em termos práticos, isso significa que qualquer análise de opinião pública hoje precisa olhar para além do “conteúdo” e observar a infraestrutura da visibilidade. Para a pesquisadora, o caso do avistamento do OVNI no Paraná não viralizou apenas porque alguém viu luzes no céu, mas sim porque encontrou um meio predisposto a transformar ambiguidade em entretenimento, dúvida em debate e crença em performance. “Quando isso acontece, o acontecimento já não pertence só ao fato; pertence ao feed”.





