Por que o problema não é a marca, mas o modelo mal compreendido (ou mal utilizado)
Nas últimas semanas, as redes sociais e a imprensa reacenderam o debate sobre o modelo de franquias no Brasil após denúncias envolvendo a Cacau Show — uma das maiores e mais reconhecidas marcas do país. Entretanto, mais do que analisar um caso específico, a polêmica evidencia um problema estrutural: o desconhecimento sobre o que significa, de fato, ser um franqueado.
Somente no ano passado, o mercado brasileiro de franquias registrou um crescimento nominal de 13,5%, com um faturamento superior a R$270 bilhões – superando a projeção inicial de 10%, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Franchising (ABF). Este é o quinto ano seguido de crescimento.
Com o crescimento do setor, é natural que surjam bons e maus exemplos. Pelo menos é isto que afirma Erlon Labatut, especialista em franquias e criador do Movimento Franchising Curitiba. “Existem empresas sérias e comprometidas, assim como há modelos mal estruturados. Além disso, mesmo em redes organizadas, franqueados podem enfrentar obstáculos se não houver alinhamento de expectativas e responsabilidades”, destaca.
Franqueado não é dono absoluto — e nem executor cego
O relacionamento entre franqueador e franqueado não é de hierarquia, como num contrato de trabalho, mas também não é uma sociedade no sentido legal do termo. É um modelo empresarial baseado em parceria — com limites bem claros. A franqueadora cede o uso da marca, do know-how e da estrutura do modelo de negócio; o franqueado, por sua vez, paga taxas, assume riscos e se compromete a operar dentro das regras.
Entretanto, Erlon afirma que o franqueado não deve ser um executor cego. “É papel dele observar o mercado local, adaptar a execução à sua realidade regional dentro dos limites estabelecidos e alimentar a franqueadora com feedbacks relevantes. Quando a relação é madura, há escuta dos dois lados. Quando não, surgem atritos, frustrações e, muitas vezes, disputas judiciais”, explica.
Porém, a linha entre parceria e subordinação pode se tornar tênue quando o franqueador abusa de seu poder, impondo regras desproporcionais. Entre os principais abusos relatados, Labatut destaca: a obrigatoriedade de compras mensais incompatíveis com o giro de estoque; fornecedores homologados com preços acima do mercado; canibalização por novas unidades próximas; e falta de suporte prometido.
No âmbito legal, a legislação brasileira é uma das mais avançadas do mundo quando se trata do segmento. A Lei nº 13.966/2019 obriga o franqueador a entregar a COF (Circular de Oferta de Franquia), detalhando informações financeiras, jurídicas e operacionais, além de fornecer contatos de franqueados e ex-franqueados da rede. Apesar disso, o país não conta com um órgão regulador específico do setor. A ABF é uma entidade associativa, sem papel fiscalizador.
“O problema, muitas vezes, é a expectativa desalinhada. Muitos entram nesse mercado sem entender como ele funciona. Acham que estão comprando uma ‘máquina de dinheiro’. Não estão. Estão investindo em um modelo de negócio com regras e riscos”, alerta.
Como evitar armadilhas: o checklist do bom franqueado
Antes de assinar um contrato de franquia, o empreendedor precisa agir como um investigador criterioso. Não basta confiar na marca, no discurso comercial ou em uma suposta “fórmula de sucesso”. O especialista sugere um verdadeiro checklist de sobrevivência no universo das franquias:
1 -Estude a Lei de Franquias (13.966/2019): entenda os seus direitos e deveres antes de fechar qualquer contrato.
2 – Leia atentamente a Circular de Oferta de Franquia (COF): esse é o documento mais importante do processo, e deve ser entregue pelo menos 10 dias antes da assinatura. Não pule essa etapa.
3 – Converse com franqueados ativos e ex-franqueados: descubra o que não está no papel. Pergunte sobre o suporte real recebido, faturamento, margens e dificuldades.
4 – Analise a viabilidade financeira por conta própria: não aceite projeções prontas como verdades absolutas. Estime custos, impostos, sazonalidade e volume de vendas realistas para sua região.
5 – Consulte advogados e especialistas: tenha um profissional com experiência em franchising para revisar os documentos e apontar possíveis riscos.
6 – Desconfie de promessas mirabolantes ou pressões para “decidir logo”: isso costuma ser sinal de armadilha.






