O atleta não é um número: até onde os dados devem decidir quem joga e quem fica no banco?

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Por Ana Paula Zandona

Estatísticas fazem parte do esporte de alto rendimento. No voleibol, elas ajudam a identificar padrões, comparar desempenhos, estabelecer metas, preparar partidas e entender por que determinada formação funciona melhor contra um adversário. O problema começa quando deixamos de utilizar o número para compreender o atleta e passamos a utilizar o número para defini-lo.

Essa discussão se tornou ainda mais importante com o avanço das tecnologias de performance no esporte universitário americano. Em uma pesquisa realizada pela NCAA em 2025 com 6.789 atletas da Division I, mais de 60% dos respondentes afirmaram utilizar tecnologias capazes de coletar dados de desempenho ou informações biométricas. Entre elas estão dispositivos vestíveis, câmeras, softwares e aplicativos.

Na minha rotina como treinadora de voleibol universitário nos Estados Unidos, os dados estão presentes praticamente todos os dias. Utilizamos estatísticas para observar tendências da equipe, estudar adversários, definir objetivos de treinamento e acompanhar a evolução individual.

Eu acredito muito nesse trabalho. Mas também aprendi que existe uma pergunta que nenhum sistema consegue responder sozinho: o que está acontecendo com aquela atleta?

O número mostra o desempenho, não conta toda a história

Quando existe uma quantidade suficiente de informações, conseguimos identificar padrões importantes. Podemos analisar, por exemplo, quais índices aparecem com maior frequência entre as equipes que avançam em determinada competição e transformar essas informações em objetivos de treinamento.

O mesmo acontece individualmente. Uma levantadora pode acompanhar sua média de assistências por set; uma atacante, sua eficiência ofensiva; e a comissão técnica pode observar recepção, bloqueio, saque e diversos outros indicadores.

Já acompanhei de perto o desenvolvimento de uma atleta que terminou uma temporada com média de 11,32 assistências por set, ficando entre os destaques de sua conferência. No ano anterior, ela tinha uma participação muito menor. Os números ajudaram a demonstrar uma evolução que também era visível dentro da quadra.

Esse tipo de informação é extremamente valioso porque permite identificar onde uma atleta pode melhorar e desenvolver treinamentos mais específicos.

Mas um indicador não explica tudo. Uma queda de desempenho pode estar relacionada a uma deficiência técnica, mas também pode refletir cansaço, adaptação a uma nova função, pressão acadêmica, insegurança ou simplesmente um período ruim.

Se o treinador olha apenas para a planilha, corre o risco de enxergar o resultado sem compreender a causa.

Quando a estatística começa a pesar

Essa preocupação ganha outra dimensão no esporte universitário porque trabalhamos com jovens que, em muitos casos, têm entre 18 e 22 anos. São atletas submetidas simultaneamente às exigências da competição, dos treinamentos, da universidade e às próprias expectativas sobre o futuro.

Dados recentes ajudam a dimensionar essa pressão. O estudo GOALS 2025, da NCAA, ouviu mais de 20 mil atletas universitários e mostrou que, entre as mulheres que haviam mudado de universidade, 39% apontaram a necessidade de melhorar a saúde mental ou o bem-estar entre as principais razões para a transferência.

É nesse ambiente que precisamos ter cuidado com a forma como apresentamos estatísticas. Existe uma diferença enorme entre dizer a uma atleta que determinado fundamento precisa melhorar e fazer com que ela acredite que aquele percentual representa quem ela é.

Quando uma jovem começa a olhar para si mesma apenas pelo índice de eficiência, pelo número de erros ou pela posição que ocupa no ranking da equipe, o dado deixa de funcionar apenas como ferramenta de desenvolvimento. Ele pode começar a interferir na percepção que ela tem da própria capacidade.

Uma pesquisa acadêmica publicada em 2026 sobre a relação de atletas universitários com seus dados de performance encontrou justamente essa dualidade. Os participantes reconheceram que os números podem oferecer direção, segurança e ajudar no desenvolvimento, mas também relataram situações em que as métricas provocaram dúvida, ansiedade e pressão, principalmente quando eram expostas ou interpretadas fora de contexto.

A mesma informação capaz de orientar pode, portanto, pesar.

Dados devem apoiar decisões, não substituir o treinador

A própria NCAA passou a discutir esse limite. As recomendações sobre tecnologias de performance no esporte universitário destacam que essas ferramentas devem ser tratadas como um dos recursos disponíveis para apoiar saúde, segurança e desempenho dos atletas.

A orientação também chama atenção para possíveis consequências não intencionais, inclusive sobre a saúde mental, além de questões relacionadas à privacidade, consentimento e segurança das informações. Para mim, esse é o ponto central.

Dados podem indicar que uma atleta está produzindo menos. Podem mostrar que outra apresenta desempenho superior em determinado fundamento. Podem ajudar a decidir uma escalação e até revelar padrões que seriam difíceis de perceber apenas observando os jogos.

Mas o treinador continua tendo uma responsabilidade que nenhum algoritmo possui: interpretar o contexto.

Eu não acredito que devamos escolher entre estatística e sensibilidade humana. Um bom trabalho precisa das duas coisas. O dado oferece evidências. A experiência ajuda a interpretá-las.

Quem está atrás daquele percentual?

No esporte de alto rendimento, decisões difíceis fazem parte do trabalho. Nem todas as atletas jogarão todos os jogos. Algumas terão mais minutos em quadra, outras precisarão esperar. Em determinados momentos, a estatística será um dos argumentos para essas escolhas.

O cuidado está em não transformar uma decisão técnica momentânea em uma definição permanente sobre a capacidade de alguém.

Especialmente durante a formação de atletas jovens, desempenho também é desenvolvimento. Uma jogadora que hoje apresenta números inferiores pode estar construindo habilidades que mudarão completamente sua participação na equipe meses depois.

Foi algo que observei na prática ao acompanhar atletas que ganharam espaço depois de períodos em que pouco jogavam. Se tivéssemos considerado apenas o retrato estatístico daquele primeiro momento, talvez não tivéssemos enxergado o potencial que ainda estava sendo desenvolvido.

Por isso, acredito que a pergunta não deve ser se devemos ou não utilizar dados no esporte. Esse caminho já não tem volta, e seria um erro ignorar informações capazes de melhorar treinamento e tomada de decisão.

A pergunta mais importante é quanto poder estamos dando a esses números.

Estatísticas devem ajudar treinadores a fazer perguntas melhores, não oferecer respostas automáticas sobre quem merece jogar, quem deve ficar no banco ou até onde uma atleta pode chegar.

Porque uma atleta pode ter uma porcentagem de ataque, uma média de assistências, um índice de recepção e dezenas de outras métricas. Mas ela nunca será apenas a soma desses números.

*Ana Paula Zandona é treinadora de voleibol e especialista em desenvolvimento de atletas e análise de performance, com experiência no esporte universitário dos Estados Unidos. Ex-atleta de voleibol no Brasil e nos EUA, atuou como levantadora na NCAA Division I e construiu sua carreira como treinadora em diferentes programas universitários americanos. Possui experiência em planejamento de treinos, recrutamento, desenvolvimento técnico e análise de desempenho por meio de dados e ferramentas especializadas. É mestre em Administração Esportiva e Estudos do Esporte e atualmente cursa MBA em Business Analytics.

Referências

NATIONAL COLLEGIATE ATHLETIC ASSOCIATION (NCAA). Student-Athlete Needs, Aspirations and Perspectives (SNAP) Study: October 2025 Survey. Indianapolis: NCAA Research, 2025.

NATIONAL COLLEGIATE ATHLETIC ASSOCIATION (NCAA). Performance Technologies Recommendations: Responsible Use in Collegiate Athletics. Indianapolis: NCAA Sport Science Institute, 2026.

PROCEEDINGS OF THE 2026 CHI CONFERENCE ON HUMAN FACTORS IN COMPUTING SYSTEMS. Improve my Performance, Protect my State of Mind: How Collegiate Student-Athletes Engage with their Sports Data. Association for Computing Machinery, 2026.

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