Neuroprotetor para Alzheimer?

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Doença ocorre numa fase da vida em que os sintomas podem ser confundidos com sinais da idade. Cícero Oliveira - Agecom/UFRN

Pesquisadores do Instituto do Cérebro são os únicos brasileiros em artigo sobre papel da proteína PLCG2 no cérebro, publicado na Nature Genetics

Laiza Félix – ICe/UFRN

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que existam 55 milhões de pessoas convivendo com algum tipo de demência. A mais frequente é a doença de Alzheimer, que corresponde de 50% a 70% dos casos. No Brasil, o Ministério da Saúde (MS) calcula que o número de pessoas com doença de Alzheimer gira em torno de 1,2 milhão, com 100 mil novos casos por ano.

Conhecida primordialmente pela perda de memória, a doença também se caracteriza pela incapacidade de realizar tarefas cotidianas, como tomar um copo d’água ou abrir uma porta. Normalmente, se manifesta em pessoas acima de 60 anos, mesma faixa etária em que os sinais de envelhecimento se acentuam. Essa coincidência dificulta o fechamento do diagnóstico, já que a doença ocorre justamente numa fase da vida em que os seus sintomas podem ser confundidos com sinais da idade.

Cerca de 100 mil novos casos de Alzheimer surgem anualmente no Brasil. As manifestações da doença são objetos de investigação no ICe/UFRN. Foto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN

A causa ainda é desconhecida, mas o estudo das características e do funcionamento do cérebro contribuem para a compreensão tanto do comportamento saudável como do doente. As manifestações da doença de Alzheimer são objetos de investigação incessante da ciência por todo mundo, inclusive, aqui, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

O artigo PLCG2 downregulation impairs synaptic function and increases Alzheimer’s disease hallmarks in neuronal cultures, publicado em agosto de 2026, no periódico Nature Genetics, conta com dois pesquisadores do Instituto do Cérebro (ICe) da UFRN entre os autores: o professor Marcos R. Costa, chefe do Laboratório de Neurociência Translacional; e sua aluna de doutorado, Ana Raquel Melo de Farias. A pesquisa, desenvolvida majoritariamente na França, com participação de neurocientistas de outros países da Europa e dos Estados Unidos, tem sua contribuição brasileira por meio do ICe.

O estudo que resultou na publicação utilizou metodologias avançadas de triagem de alto rendimento (high-content screening) e modelos neurais derivados de células-tronco humanas para avaliar quase duas centenas de genes associados ao risco genético de Alzheimer. O grande destaque da investigação foi a identificação da proteína PLCG2 (fosfolipase C gama 2) — envolvida na sinalização celular e que pode influenciar a comunicação entre neurônios — como uma peça-chave na manutenção da saúde e da função sináptica.

Professor Marcos R. Costa, do ICe/UFRN, e a aluna de doutorado, Ana Raquel Melo de Farias, participam de pesquisa desenvolvida no Instituto Pasteur de Lille, na França. Foto: Laboratório de Neurociência translacionalo

“Durante muito tempo, a comunidade científica concentrou a atenção na PLCG2, principalmente, sob a perspectiva da neuroinflamação e do papel da microglia na eliminação de placas patológicas. Contudo, dados recentes de sequenciamento de RNA de núcleo único já indicavam que o gene PLCG2 também é expresso em populações neurais. Nesse trabalho, demonstramos que a função da PLCG2 vai muito além da resposta imune celular, atuando diretamente nos compartimentos pré e pós-sinápticos dos neurônios”, explicou o professor Marcos.

O artigo demonstra que a diminuição da expressão da proteína PLCG2 em neurônios produz alterações similares àquelas encontradas no cérebro de pacientes com a doença de Alzheimer. No entanto, o artigo também analisou dados de voluntários saudáveis, que levou a algumas descobertas. “Verificamos que variantes raras que causam perda de função (loss-of-function) na PLCG2 elevam, em quase dez vezes, o risco de uma pessoa desenvolver a doença de Alzheimer. Por outro lado, existem mutações benéficas. Sabemos que uma outra variante genética rara na PLCG2 (P522R) reduz em cerca 30% o risco de desenvolver a doença de Alzheimer e é encontrada com maior frequência em centenários saudáveis. Ou seja, enquanto a perda de função da proteína acelera o dano sináptico, a presença dessa variante hipermórfica (aumento da função enzimática) parece conferir uma proteção natural ao longo do envelhecimento”, detalhou.

Para o professor, sabendo que a diminuição da PLCG2 gera um cenário patológico e que a variante hipermórfica é protetora, o foco, agora, é simular esse efeito benéfico em modelos terapêuticos. “Posso adiantar que, atualmente, nosso laboratório no Instituto do Cérebro está investigando a validade desta variante protetora da PLCG2 como um possível tratamento neuroprotetor na doença de Alzheimer. Estamos trabalhando para entender se a ativação direcionada da via da PLCG2 pode prevenir a degeneração sináptica e conter a progressão dos marcadores patológicos da doença”, planeja. O artigo completo está disponível neste link.

Estudo investiga a validade de variante protetora de proteína como possível tratamento neuroprotetor na doença de Alzheimer. Foto: Laboratório de Neurociência translacionalo

Sobre o Instituto do Cérebro

Em 2026, o Instituto do Cérebro (ICe) completa 15 anos de atividades. Criado pela UFRN como unidade acadêmica especializada em neurociência, o ICe desenvolve pesquisa básica com modelos animais, oferece cursos de pós-graduação e também disciplinas de graduação, recebendo desde alunos de iniciação científica até professores convidados e pós-doutorandos. Ao longo do ano, realiza ações de extensão como a Semana do Cérebro (divulgação científica para o público geral), o House Symposium (apresentação das pesquisas para comunidade acadêmica) e palestras tanto dos professores do Instituto quanto de convidados externos. Conheça mais sobre o ICe em neuro.ufrn.brLEIA NO PORTAL UFRN

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