Pablo Araújo, Maralice Freitas e Cícero Oliveira – Agecom/UFRN
Despiu-se do conforto da cidade grande para clinicar em arraiais na roça mineira, indo ao encontro dos doentes montado a cavalo e ainda recebia aves e ovos como pagamento. Assim foi o início da breve carreira de médico de João Guimarães Rosa, tempo suficiente para encher-se de respeito pela arte de curar e pelos encantos das comunidades e personagens peculiares registrados em seus textos, como no conto “Duelo”, da obra Sagarana.
Praticar a interiorização da Medicina é um desafio que se estende ao longo dos tempos. No Estado potiguar, a Escola Multicampi de Ciências Médicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EMCM/UFRN) surge com um objetivo claro: formar médicos conectados à realidade fora dos grandes centros urbanos, particularmente, no contexto rural. Desde 2014, a proposta pedagógica da instituição se baseia na integração entre o ensino, o serviço e a comunidade, especialmente em municípios como Caicó, Currais Novos e Santa Cruz.
É nesse cenário, que estudantes de Medicina passam a atuar diretamente nos equipamentos do Sistema Único de Saúde (SUS) e vivenciar a experiência de construir conhecimento de maneira territorializada, se aproximando da realidade local e valorizando as necessidades de saúde da população. Dentro desse modelo, o Vivência Integrada na Comunidade (VIC) ocupa um papel central. Trata-se de um componente curricular que acompanha os estudantes desde os primeiros períodos até a fase final do curso, funcionando como um internato longitudinal, no qual o aprendizado acontece diretamente nos serviços de saúde e nos territórios onde as pessoas vivem.
Essa experiência abre caminho para que pessoas da própria região se formem a partir do lugar em que vivem. Segundo a coordenadora do VIC, Ana Luiza de Oliveira, a proposta vai além da formação técnica, pois “é uma estratégia de produzir um projeto de sociedade mais justo, mais equânime, a partir do território”.

O território como espaço de aprendizado
Diferente dos modelos tradicionais, os módulos VIC oportunizam aos estudantes a vivência na realidade local desde os anos iniciais da formação médica. As experiências nas comunidades e nos movimentos sociais presentes no território se evidenciam com atividades desenvolvidas em unidades básicas de saúde, hospitais, ambulatórios e visitas domiciliares, acompanhando de perto as condições de vida do povo das regiões Seridó e Trairi.
Ao longo do componente curricular, os discentes se inserem em diferentes áreas e serviços, como assistência social e ações de educação em saúde. Também lidam com situações que envolvem o contexto de vida das pessoas, como condições econômicas, escolaridade, acesso a serviços e organização familiar. Em todos esses cenários de aprendizagem, a preceptoria e acompanhamento do aluno são feitos de maneira interprofissional. Do médico ao agente comunitário de saúde, o processo de aprendizagem se concretiza em ato, durante o processo de trabalho das equipes de saúde.
Para os profissionais que atuam no território, essa presença faz diferença. O agente comunitário de saúde, Gutemberg Dantas, resume bem esse impacto ao afirmar que a vivência permite que os estudantes desenvolvam “um olhar mais apurado da realidade da comunidade”. Já a agente comunitária Francisca Alves destaca o contato direto com as famílias. “Eles se aproximam da realidade social das famílias […] isso facilita quando forem médicos”.

VIC na prática
Efetivamente, o território deixa de ser um corpo social descolado da prática médica e passa a ser parte ativa do processo de aprendizagem. Para os alunos, os módulos VIC são momentos em que o que se aprende passa a ser construído a partir do território, permitindo que os conhecimentos mobilizados em sala de aula possam ser úteis em trocas e produção de novos saberes. O componente também coloca o SUS no centro da formação. É nos serviços que os estudantes entendem como a rede funciona na prática, passando pela atenção básica, secundária e terciária, e lidando com situações reais do dia a dia.
O processo aproxima a Universidade dos serviços e ajuda a formar profissionais mais alinhados com o que o SUS propõe, principalmente no trabalho em equipe e no cuidado ampliado. Não é só sobre atender, mas também sobre entender o contexto de cada paciente. Esse contato direto também impacta a forma como os estudantes chegam nas etapas finais do curso; muitos já conhecem os fluxos, os serviços e até as equipes, o que facilita a atuação e a adaptação nos atendimentos.
O impacto aparece nas falas de quem vive no território. Para os moradores das comunidades, a diferença no atendimento é algo que chama atenção. Dyevy dos Santos, moradora de Currais Novos, conta que, durante o pré-natal, percebeu uma escuta mais cuidadosa. “Senti que tive mais tempo para falar e ser ouvida”, relata. Para ela, isso trouxe mais segurança durante o acompanhamento.

Já o graduando de Educação Física Gabriel Lorenzo, de Caicó, faz uma comparação direta com um atendimento que recebeu fora da cidade. Segundo ele, a diferença está na forma como a pessoa é tratada. “Não é porque é público que tem que ser sucateado”, afirma. Ele destaca que a assistência dos estudantes foi mais atenta e direta. Essas experiências mostram que a presença dos alunos também interfere na forma como o cuidado acontece no serviço.
Fixação do profissional na região
Um ponto que chama atenção é o retorno de ex-alunos para os mesmos espaços onde foram formados. Isso mostra como a proposta da escola se mantém ao longo do tempo.
Renner Cássio de Lucena passou pelo VIC desde o início do curso. Hoje, atua como médico na região e acompanha novos estudantes. “Eu me sinto um médico muito mais preparado”, afirma. Para ele, a vivência desde os primeiros períodos faz diferença na forma como entende os usuários e o trabalho. Esse movimento também aparece em outros casos, com egressos que voltam como profissionais ou até como docentes.

O grande desafio
A proposta do VIC parte da ideia de que o estudante precisa entender o território não só como prática biomédica, mas, sobretudo, como prática de cidadania a partir da experiência territorializada. Mesmo com os bons resultados, a continuidade desse modelo enfrenta um ponto que pesa diretamente na proposta do VIC.
A coordenadora, professora Ana Luiza de Oliveira, chama atenção para a queda do Argumento de Inclusão Regional (AIR), que, desde 2025, deixou de ser a materialização de uma política afirmativa que visa a privilegiar estudantes da própria região, garantindo, além de oportunidade de acesso aos cursos de Medicina, a fixação profissional deste grupo em regiões subservidas. Para o VIC, essa mudança também retira diálogos dos próprios alunos com seu território e o sentimento de pertencimento, o que enfraquece a potência formativa da metodologia. Quando esse vínculo diminui, a formação pode perder parte dessa conexão.
Segundo Ana Luíza, isso não é uma questão apenas de acesso, mas também de qualificação. “É uma tentativa de construir uma formação que parte do território — onde a vida pulsa, onde as pessoas vivem e onde a cultura se manifesta muito fortemente —, para pensar a sociedade. Quando esse ponto é enfraquecido, o impacto não é só acadêmico, mas também social”, ressalta a coordenadora.
O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Ministério da Educação (MEC) têm considerado a bonificação proposta pelo AIR, baseada apenas no local de residência ou estudo, como inconstitucional, pois violaria os princípios da isonomia e da legalidade.
Reconhecimento
A ideia de formar médicos dentro da realidade local, acompanhando de perto o cotidiano dos serviços e das comunidades, acaba refletindo tanto na formação quanto nos resultados institucionais. A proposta da EMCM vem sendo reconhecida em avaliações nacionais do ensino superior. Um dos destaques recentes foi o desempenho no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina (Enamed), em que a instituição alcançou nota máxima, colocando em evidência um modelo de formação construído fora dos grandes centros urbanos.
Esse resultado dialoga diretamente com a lógica do VIC. A atuação que começa cedo nos territórios, nos serviços de saúde, com contato direto com o SUS, respeitando valores éticos e culturais, se reflete na forma como os estudantes lidam com o mundo concreto em sua interface com a Medicina, impactando positivamente a realidade ao seu redor. LEIA NO PORTAL UFRN






