Férias escolares e autistas: por que a atividade física não deve entrar em recesso? 

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*Paloma Herginzer 

Enquanto para muitas crianças as férias representam apenas descanso e diversão, para aquelas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) a mudança na rotina pode significar também a interrupção de estímulos importantes para o desenvolvimento. Nesse contexto, surge uma pergunta: a atividade física também deve entrar em recesso? 

As férias são importantes para descansar, renovar as energias e fortalecer os vínculos familiares. Porém, isso não significa interromper completamente a prática de atividades físicas. O movimento faz parte do desenvolvimento infantil e, para muitas crianças autistas, é uma importante ferramenta para estimular habilidades motoras, favorecer a interação social e promover o bem-estar e a qualidade de vida. 

A ciência tem demonstrado cada vez mais os benefícios da prática regular de atividade física para pessoas com TEA. Um exemplo é o estudo publicado em 2025 na revista Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry, conduzido por pesquisadores chineses . O trabalho reuniu e analisou resultados de diversos ensaios clínicos realizados em diferentes países, concluindo que crianças autistas apresentam melhores resultados quando participam de programas de atividade física de forma contínua e planejada. Entre os benefícios observados estão a melhoria das habilidades motoras, da interação social, da comunicação e a diminuição de comportamentos repetitivos. 

Esse resultado chama a atenção para um aspecto importante: os ganhos proporcionados pela atividade física estão diretamente relacionados à sua regularidade. Em outras palavras, quanto maior a continuidade da prática, maiores tendem a ser seus benefícios. Isso nos leva a pensar que as férias escolares não precisam significar uma interrupção completa do movimento, mas sim uma oportunidade de vivenciá-lo de maneira mais leve, prazerosa e junto da família. 

Felizmente, manter uma criança ativa durante as férias não exige equipamentos sofisticados nem atividades complexas. Uma caminhada no parque, um passeio de bicicleta, brincadeiras com bola, circuitos motores montados em casa, jogos de imitação, dança ou momentos na piscina já oferecem estímulos importantes para o desenvolvimento. O essencial é respeitar os interesses, as necessidades e o ritmo de cada criança, transformando a atividade física em uma experiência positiva.  

Outro ponto que merece atenção é que o período de férias também pode fortalecer os vínculos familiares. Quando pais, irmãos e responsáveis participam dessas atividades, o exercício deixa de ser apenas uma estratégia de desenvolvimento e passa a representar momentos de convivência, diversão e construção de memórias afetivas. Além disso, a presença da família favorece a participação da criança e amplia suas oportunidades de interação social.  

É importante lembrar que cada pessoa com TEA é única. Algumas crianças gostam de esportes coletivos, outras preferem atividades individuais ou ambientes mais tranquilos. Não existe uma fórmula pronta. O que existe é a necessidade de oferecer oportunidades para que cada criança continue explorando o movimento de acordo com suas características e potencialidades.  

Se a escola entra em recesso, o movimento não precisa fazer o mesmo. Afinal, para muitas crianças autistas, brincar, correr, pular, dançar e explorar novos espaços não é apenas lazer. É também uma forma de aprender, comunicar-se, desenvolver habilidades e participar ativamente do mundo ao seu redor. Que as férias sejam um tempo de descanso, mas também de oportunidades para manter o corpo em movimento, fortalecer os laços familiares e garantir que o desenvolvimento continue acontecendo de forma leve, prazerosa e inclusiva. 

*Paloma Herginzer é formada em licenciatura em educação física, especialista em educação especial e inclusiva e formação docente EAD. Professora Tutora dos cursos da área da educação e desportiva de Pós-graduação do Centro Universitário Uninter. 

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