Estudo revela como redes de amizade influenciam a obesidade na adolescência

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Imagem gerada por IA/Anastácia Vaz - Agecom/UFRN

O peso da amizade

Bianca Tavares – CCET/UFRN

Já imaginou que o seu peso corporal pode sofrer influência direta de quem está sentado ao seu lado? Longe de ser apenas uma escolha individual ou uma questão de genética, a saúde dos jovens está profundamente conectada aos seus círculos de convivência.

Foi partindo dessa premissa que pesquisadores vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) publicaram um estudo na revista científica Nutrients, revelando que as redes de amizade exercem um papel fundamental na transmissão e no reforço de hábitos que induzem à obesidade na adolescência. A pesquisa demonstra que o excesso de peso entre os jovens não deve ser tratado apenas como um problema individual, mas sim como um fenômeno coletivo moldado pelas relações sociais.

De acordo com o estudo, o ambiente de convívio dos adolescentes funciona como um espaço de livre circulação de comportamentos, onde as escolhas alimentares e o nível de atividade física são fortemente influenciados por um mecanismo de seleção social que faz com que os jovens tendam a formar laços de amizade com pares que compartilham características físicas, estilos de vida e pesos corporais semelhantes. Esse processo é chamado de homofilia. Ao elucidar essas complexas variáveis populacionais, os cientistas conseguiram mapear como o contexto relacional afeta a saúde de maneiras distintas dentro dos grupos.

Análise de dados aponta que jovens tendem a formar laços de amizade com pares que compartilham características físicas, estilos de vida e pesos corporais semelhantes. Imagem: Pexels/Mizunokozukio

Essa inquietação que moveu o estudo partiu da nutricionista e pesquisadora Maria de Jesus Xavier Aguirre, que liderou o grupo e utilizou a metodologia de Análise de Redes Sociais (ARS) para investigar o sobrepeso e a obesidade sob uma nova ótica.

“O que mais me motivou a estudar a obesidade foi perceber a dimensão desse problema. É uma doença que afeta milhões de pessoas, em diferentes idades, classes sociais e países, e que representa um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade”, explica a pesquisadora. “Ao conhecer melhor a literatura, percebi que importantes avanços já haviam sido alcançados na compreensão dos determinantes genéticos, metabólicos e comportamentais da obesidade. No entanto, sempre me intrigou a ideia de que nossas escolhas nunca são completamente individuais; elas também são influenciadas pelas pessoas com quem convivemos”, conclui.

Embora o papel das relações sociais tenha despertado crescente interesse na literatura científica, a pesquisadora Maria de Jesus ressalta que essa perspectiva ainda é menos explorada do que os modelos tradicionais de investigação. Para ela, entender como familiares, amigos e outros vínculos sociais influenciam comportamentos relacionados à alimentação, à atividade física e aos hábitos de saúde pode ampliar significativamente a compreensão sobre a obesidade, contribuindo para estratégias de prevenção e intervenção mais eficazes, especialmente entre os adolescentes.

Fatores de gênero

O estudo também identificou que essa influência coletiva é diretamente moderada por fatores de gênero. Os dados estatísticos analisados apontam que as redes de amizade dos meninos compartilham padrões de consumo de alimentos não saudáveis e de alto teor calórico semelhantes. Já as meninas demonstram maior similaridade em comportamentos sedentários, além de compartilharem quadros de insatisfação corporal e distúrbios alimentares.

Estudo sugere que programas de saúde identifiquem adolescentes com alta centralidade social dentro da escola para que eles atuem como vetores e modelos positivos. Imagem: Pexels/Towfiqu-barbhuiya

A análise dessas discrepâncias e conexões deu corpo ao artigo The Influence of Social Networks on Adolescent Overweight and Obesity: A Narrative Review, fruto da tese de doutorado da pesquisadora. “Olhar para a obesidade além do indivíduo, considerando também o contexto social em que as pessoas vivem e se relacionam, pode gerar conhecimento com potencial para impactar tanto a pesquisa quanto a formulação de políticas públicas”, afirma Maria de Jesus.

Para dar vida a esse mapeamento complexo, o estudo contou com uma rede colaborativa de cientistas. Ao lado da equipe da UFRN, composta por Moisés Alberto Calle Aguirre, Eva Débora de Oliveira Andrade, Ana Carolina Costa Campos Mota e Mércia Maria de Santi, a investigação rompeu fronteiras geográficas por meio de encontros e interações totalmente on-line. Essa dinâmica permitiu a integração de pesquisadores de outras instituições de peso, como Flávia Cristina Drumond Andrade, da University of Illinois at Urbana-Champaign (EUA), e Weber Soares, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Com base nos resultados obtidos, os pesquisadores reforçam a necessidade de incorporar a perspectiva de ARS às estratégias de prevenção e promoção da saúde, como uma ferramenta complementar às abordagens tradicionais, considerando a influência das relações interpessoais nos comportamentos dos jovens. O estudo aponta o ecossistema escolar como o território ideal para a aplicação de recursos eficientes, sugerindo que os programas de saúde identifiquem adolescentes com alta centralidade social dentro da escola para que eles atuem como vetores e modelos positivos, estimulando a adoção de novas normas de convivência e hábitos saudáveis entre seus pares.

Impacto na saúde pública

Maria de Jesus Xavier Aguirre pretende dar continuidade aos estudos sobre obesidade em adolescentes utilizando a metodologia de ARS em escolas de ensino médio de Natal. Foto: Anastácia Vaz – Agecom/UFRN

A pesquisa desenvolvida no PPGDem/UFRN abre portas para uma aplicação prática ainda mais profunda. Como próximos passos, Maria de Jesus pretende dar continuidade aos estudos sobre obesidade em adolescentes utilizando a metodologia de ARS diretamente em escolas de ensino médio de Natal, além de aprofundar a literatura científica internacional sobre o tema. A expectativa é que essa metodologia possa, no futuro, ser mais amplamente aplicada no campo da saúde, contribuindo para estratégias mais eficazes de prevenção da obesidade.

A nutricionista finaliza com uma declaração contundente sobre o impacto do projeto para a saúde coletiva. “Este trabalho reforça a importância de compreender a obesidade na adolescência não apenas a partir de fatores individuais, mas também dos ambientes relacionais nos quais os comportamentos são formados. Integrar a perspectiva da ARS na pesquisa e nas intervenções em saúde é um passo importante para o desenvolvimento de ações mais eficazes e contextualizadas em saúde pública”. LEIA NO PORTAL UFRN

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