Resíduo têxtil vira tecnologia com ação antimicrobiana e proteção UV
Wilson Galvão – Agir/UFRN
Fotos: Anastácia Vaz – Agecom/UFRN
Um resíduo gerado pela própria indústria têxtil pode ganhar uma nova função e se transformar em um material de alto valor agregado. É essa a proposta da tecnologia desenvolvida na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que resultou no depósito, em julho, da patente “Processo solvotermal utilizando efluente têxtil para produção de pigmento funcional de pontos quânticos de carbono com ação antimicrobiana e proteção UV e seu uso”.
O processo utiliza como matéria-prima um resíduo gerado durante o pré-tratamento de tecidos destinados à estamparia digital, que é um procedimento tecnológico de impressão de desenhos, cores e imagens diretamente na superfície dos tecidos e que usa impressoras de grande porte e arquivos digitais controlados por computador. Nesse processo, uma solução contendo grande quantidade de ureia é colocada no tecido e, posteriormente, seca na fibra antes da impressão. Essa impregnação da ureia no tecido é fundamental para reter umidade e auxiliar na fixação do pigmento, situação que gera efluentes que exigem tratamento adequado na água residual da indústria têxtil.
Segundo o pesquisador Felipe Mendonça Fontes Galvão, em vez de tratar esse material apenas como resíduo, a tecnologia desenvolvida transforma um efluente proveniente da estamparia digital em nanopigmentos fluorescentes à base de pontos quânticos de carbono. Os nanopigmentos produzidos apresentam propriedades fluorescentes, ação antimicrobiana e proteção contra a radiação ultravioleta (UV), características que ampliam significativamente suas possibilidades de utilização. “A ideia é transformar um resíduo que, normalmente, seria visto como um problema em uma matéria-prima para produzir um material funcional e de maior valor agregado”, explica Felipe Galvão, pesquisador responsável pelo aprofundamento dos estudos sobre os nanopigmentos.

O desenvolvimento teve início a partir do trabalho de conclusão de curso da então estudante de Engenharia Têxtil, Beatriz Fernandes Cândido, e, posteriormente, foi ampliado por Felipe Galvão durante sua tese de doutorado. Uma das aplicações mais promissoras está justamente na indústria têxtil, chamando atenção principalmente pela possibilidade de unir sustentabilidade, funcionalidade e aplicação industrial. Segundo Beatriz Cândido, os materiais podem ser utilizados em processos de tingimento e acabamento de tecidos, possibilitando a produção de peças que, além da coloração, apresentem propriedades funcionais. A tecnologia também abre espaço para aplicações em roupas destinadas a diferentes finalidades, incluindo produtos voltados ao mercado de moda fitness, segmento em que um protótipo já foi validado experimentalmente.
“O potencial vai muito além das roupas, pois os nanopigmentos podem ser empregados em polímeros, plásticos, tintas, revestimentos e processos de manufatura aditiva, incluindo impressão 3D. Na prática, isso significa que a mesma tecnologia pode contribuir para a fabricação de embalagens, produtos de consumo, superfícies decorativas, materiais para construção e diferentes tipos de revestimentos”, destaca Beatriz Cândido. No cotidiano, exemplos não faltam: a inovação poderia aparecer em tecidos com maior proteção contra a radiação UV, materiais com propriedades antimicrobianas, tintas, revestimentos, objetos decorativos, embalagens e materiais plásticos também estão entre os produtos que podem, futuramente, incorporar os nanopigmentos desenvolvidos.

Economia circular
Felipe Galvão complementa identificando que “essa é uma tecnologia bastante versátil, porque as propriedades do material permitem pensar em aplicações que ultrapassam o setor têxtil”. Ele destaca também que outro diferencial está na origem da matéria-prima, pois, além de reduzir o desperdício, a estratégia de utilização do resíduo cria uma nova possibilidade de aproveitamento para um material que seria descartado, transformando-o em insumo para produtos de maior valor tecnológico.
“Essa patente que desenvolvemos aplica conceitos de economia circular e upcycling, ao utilizar um resíduo industrial para produzir um nanomaterial funcional. A proposta também se apresenta como alternativa promissora a determinados corantes e pigmentos convencionais que podem apresentar problemas relacionados à toxicidade”, explica o atual docente da Universidade Federal de Sergipe, mas que, na época da criação da inovação, estava vinculado como doutorando ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química da UFRN. O trabalho contou ainda com discussões e orientação científica dos professores José Heriberto e Domingos Fabiano, consolidando uma trajetória de pesquisa que levou à proteção da propriedade intelectual.

Uso validado em escala laboratorial
A tecnologia já possui uma primeira demonstração prática: os nanopigmentos foram aplicados em peças de vestuário da área de moda fitness, validando seu funcionamento em uma aplicação real. Atualmente, o desenvolvimento está em escala laboratorial, classificado como TRL 4, com testes funcionais concluídos e preparação para uma etapa de escalonamento. Paralelamente, os pesquisadores trabalham no aprimoramento de acabamentos têxteis, na ampliação da paleta de pigmentos fluorescentes e na integração de LEDs com novas fibras fotoluminescentes. “Estamos buscando ampliar as possibilidades de uso e agregar ainda mais funcionalidades aos materiais, para que a tecnologia possa chegar a diferentes produtos e mercados”, afirma Felipe Galvão.
Para o grupo de pesquisadores, o depósito da patente representa o fato de que um problema gerado pela atividade industrial pode ser convertido em oportunidade de inovação, já que, ao transformar efluente têxtil em nanopigmentos funcionais, a pesquisa desenvolvida na UFRN cria uma ponte entre gestão de resíduos, nanotecnologia e desenvolvimento de novos materiais. Segundo eles, a perspectiva é que, com o avanço dos estudos e o futuro escalonamento, a tecnologia possa contribuir para produtos mais sustentáveis e funcionais, alcançando não apenas a indústria têxtil, mas também áreas de maior complexidade tecnológica, como os sensores e dispositivos optoeletrônicos. LEIA NO PORTAL UFRN





