Evidências científicas apontam os septos fibrosos como peça central em parte das depressões da celulite. Especialista explica por que tratar apenas a superfície pode não alcançar a estrutura que mantém determinados pontos da pele puxados para dentro
Uma mulher pode emagrecer, ganhar músculo, treinar cinco vezes por semana, investir em cosméticos e continuar enxergando exatamente o mesmo furinho no glúteo ou na coxa. Em alguns casos, insistir mais na dieta, aumentar o treino ou trocar de creme simplesmente não atinge o problema.
Isso porque determinadas depressões da celulite estão relacionadas a estruturas fibrosas localizadas abaixo da pele que exercem tração sobre aquele ponto. São os chamados septos fibrosos.
Uma revisão publicada no Dermatologic Surgery concluiu que alterações nesses septos estão entre os principais componentes da fisiopatologia da celulite e que estratégias direcionadas a eles apresentam os resultados mais consistentes para as depressões associadas à tração. Abordagens dirigidas a outros componentes, como características da derme e inflamação, apresentaram resultados mais variáveis ou de menor duração nos estudos analisados.
Para o Dr. Matheus Azevedo, médico com atuação em medicina do contorno corporal, otimização metabólica e estratégias regenerativas, esse entendimento muda completamente a pergunta que deveria ser feita antes de iniciar um tratamento.
“Quando existe uma depressão muito marcada, o primeiro passo não deveria ser perguntar qual aparelho ou qual produto usar. Precisamos entender o que está mantendo aquela pele naquela posição. Se existe uma estrutura fibrosa tracionando o tecido, precisamos considerar esse mecanismo na escolha do tratamento.”
O furinho não está simplesmente “em cima” da pele
A celulite costuma ser percebida como uma alteração da superfície. A arquitetura responsável por sua aparência, porém, está abaixo dela.
Entre a pele e os planos mais profundos existe tecido adiposo atravessado por estruturas conjuntivas que funcionam como pontos de sustentação. Quando determinados septos exercem uma força para dentro enquanto o tecido ao redor exerce pressão em outras direções, pode surgir uma depressão.
É o que aparece do lado de fora como o conhecido furinho.
A anatomia é mais sofisticada do que a ideia de uma simples “cordinha” puxando a pele. Uma revisão anatômica mostrou que septos, fáscia, gordura superficial, gordura profunda e pele formam uma arquitetura tridimensional complexa, cuja interação participa da aparência da celulite.
Mas há um ponto importante: evidências clínicas acumuladas apontam os septos ricos em colágeno como elemento central especialmente nas depressões bem delimitadas. Outra revisão da literatura concluiu que abordagens mecânicas, cirúrgicas ou enzimáticas direcionadas aos septos apresentaram maior possibilidade de melhora duradoura da topografia da pele do que estratégias voltadas exclusivamente ao tecido adiposo ou à derme.
É aí que surge uma diferença que costuma desaparecer no marketing da celulite. Melhorar a superfície da pele não é necessariamente o mesmo que liberar a estrutura responsável pelo afundamento.

Um creme pode chegar à pele. Isso não significa que consiga soltar um septo
É possível que determinados cosméticos modifiquem hidratação, textura ou outras características superficiais da pele. Mas nenhuma dessas alterações equivale mecanicamente a seccionar ou liberar uma banda de tecido conjuntivo que esteja ancorando uma depressão.
A mesma lógica vale para outras estratégias.
Emagrecer pode reduzir gordura corporal.
Musculação pode desenvolver o glúteo e modificar o contorno.
Cuidados com a pele podem melhorar sua aparência.
Nada disso significa automaticamente que um septo responsável por determinado ponto de tração deixou de existir.
E talvez seja justamente por isso que tantas mulheres descrevem uma experiência semelhante: o corpo inteiro mudou, mas alguns furinhos continuam exatamente no mesmo lugar. Segundo Dr. Matheus Azevedo, é nessa hora que o tratamento genérico da “celulite” começa a perder sentido: “Uma paciente pode melhorar composição corporal, pele e musculatura e ainda ter uma depressão estrutural. Não significa que tudo o que ela fez foi inútil. Significa que aquele furinho pode ter outro mecanismo. O tratamento precisa conversar com a estrutura que está causando o problema.”
Essa distinção também impede outro erro: concluir que toda celulite deve ser tratada da mesma maneira.
Quando o alvo está nos septos
Quando a avaliação identifica uma depressão em que a tração fibrosa exerce papel importante, uma das estratégias existentes é a subcisão. A lógica é diferente da de tratamentos que tentam atuar sobre a pele externamente.
O médico acessa o plano subcutâneo e realiza a liberação das estruturas fibrosas responsáveis pela tração em pontos selecionados. Em termos simples: se existe uma estrutura mantendo aquele ponto puxado para dentro, o tratamento busca liberar essa ancoragem.
Nem todo furinho é septo e esse talvez seja o ponto mais importante
Descobrir a importância dos septos não significa transformar todo caso de celulite em indicação de subcisão. Esse seria apenas outro protocolo pronto.
Flacidez, distribuição de gordura, qualidade da pele e outros componentes também podem modificar o relevo corporal. Em uma mesma mulher, vários desses fatores podem coexistir.
Uma revisão clínica publicada em 2024 destaca justamente a dificuldade de tratar celulite como uma alteração única e a necessidade de considerar sua anatomia e diferentes mecanismos na escolha das intervenções. É aí que a medicina do contorno corporal se diferencia da lógica de procurar “o melhor tratamento para celulite”.
Em uma mulher, a principal preocupação pode estar na qualidade da pele. Em outra, no volume. Em outra, em depressões firmemente ancoradas. Muitas apresentam mais de uma alteração ao mesmo tempo.
Por isso, olhar para duas pernas com furinhos semelhantes e aplicar automaticamente o mesmo protocolo pode significar tratar aparências parecidas como se tivessem exatamente a mesma origem.
Antes de comprar mais um tratamento, descubra o que está puxando sua pele
O mercado oferece uma lista praticamente infinita de soluções para celulite: cremes, massagens, aparelhos, exercícios, suplementos, tecnologias e procedimentos.
Alguns podem atuar sobre componentes específicos.
O problema começa quando uma melhora superficial é confundida com correção estrutural.
Para uma depressão associada principalmente a um septo fibroso, talvez a pergunta mais útil não seja quanto custa o creme mais famoso ou qual exercício deve ser acrescentado ao treino.
É outra: existe alguma estrutura mantendo essa pele presa para dentro?
Responder isso muda toda a estratégia. E talvez explique por que algumas mulheres passam anos tentando apagar por fora um furinho cuja origem está alguns milímetros abaixo da superfície.

Dr. Matheus Azevedo é médico com atuação em medicina do contorno corporal, otimização metabólica e estratégias regenerativas. Tem como principal foco de trabalho o tratamento da celulite e das alterações relacionadas ao contorno corporal, com abordagem individualizada, baseada na anatomia, composição corporal e nas características específicas de cada paciente. Seu trabalho integra avaliação clínica, tecnologias e procedimentos voltados à melhora da qualidade da pele e da arquitetura dos tecidos.





