Janaina Aparecida Tintori*
O futebol deixou de ser apenas um esporte e virou um fenômeno social, cultural e psicológico de alcance global. Na copa, estima-se que bilhões de pessoas acompanhem os jogos, envolvendo-se emocionalmente com as equipes. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, em 2025, demonstrou que assistir a partidas de futebol altamente estressantes pode mais que dobrar o risco de eventos cardiovasculares agudos, como infarto e arritmias, particularmente em indivíduos vulneráveis.
Nesse contexto, compreender por que torcedores experimentam emoções intensas — como euforia, raiva, ansiedade e frustração — tornou-se objeto de estudo da neurociência, da psicologia e das ciências sociais.
O sistema de recompensa: quando vencer é prazer
Um dos principais mecanismos envolvidos na experiência do torcedor é o sistema de recompensa cerebral. Estudos utilizando neuroimagem da equipe de Butler, demonstram que assistir a jogos do time preferido ativa regiões associadas ao prazer, como o estriado ventral, especialmente em momentos de vitória.
Esse fenômeno é conhecido como prazer vicário, no qual a pessoa experimenta recompensas emocionais como se estivesse diretamente envolvido na ação. Por outro lado, derrotas podem levar à redução da atividade em regiões relacionadas ao controle emocional, contribuindo para comportamentos impulsivos e reações exacerbadas.
Emoção em alta intensidade: o cérebro sob pressão na Copa
As emoções vivenciadas durante um jogo são rápidas, intensas e frequentemente imprevisíveis. A rivalidade entre equipes potencializa essas respostas, promovendo alterações dinâmicas no cérebro em questão de segundos. Pesquisas da Sociedade de Radiológica da América do Norte indicam que o equilíbrio entre sistemas de recompensa e controle cognitivo pode ser rapidamente reconfigurado conforme o desempenho do time.
Durante derrotas importantes, há evidências de diminuição na atividade do córtex cingulado anterior dorsal, área associada à regulação emocional e tomada de decisão. Essa redução pode explicar por que torcedores, em situações extremas, apresentam reações desproporcionais, como agressividade ou comportamentos impulsivos.
Pertencimento e rituais: a dimensão social do torcer
Torcer não é apenas uma experiência individual, mas também profundamente coletiva. Assistir a jogos, vestir camisas, cantar hinos e participar de celebrações são rituais que reforçam o sentimento de pertencimento, e a Copa do Mundo evidencia esse coletivo muito bem.
Do ponto de vista neurobiológico, esses comportamentos estão associados à liberação de endorfinas, substâncias relacionadas ao bem-estar e à coesão social. Assim, o futebol atua como um importante mecanismo de integração social, reduzindo sentimentos de isolamento e promovendo vínculos entre as pessoas.
Quando o envolvimento se torna risco
Estudos internacionais e também da USP de Ribeirão Preto, refletem que embora o envolvimento com o futebol possa trazer benefícios sociais e emocionais, há situações em que esse engajamento se torna excessivo. A hiperidentificação com o time pode levar a prejuízos não só na regulação emocional, como aumento da agressividade e dependência psicológica dos resultados esportivos, mas também clínicos.
Situações de tensão extrema — como disputas por pênaltis, gols decisivos ou derrotas inesperadas — estão associadas a aumentos súbitos da frequência cardíaca e da pressão arterial.
Do ponto de vista fisiológico, essas reações são mediadas pela ativação do sistema nervoso simpático e pela liberação de adrenalina e noradrenalina. Embora esse mecanismo seja adaptativo, sua ativação intensa e repetida pode representar um risco, especialmente para indivíduos com doenças cardiovasculares pré-existentes.
Durante jogos importantes, é normal sentir ansiedade, alegria e tensão. Mas emoções muito intensas podem trazer riscos à saúde — principalmente para quem já tem problemas cardíacos.
American Heart Association, em 2024 citou estratégias simples para auxiliar nesse processo, como a prática de respiração controlada em momentos de maior tensão, a manutenção de hábitos saudáveis durante os jogos — incluindo alimentação equilibrada e consumo moderado de álcool — e a conscientização sobre os próprios limites emocionais.
Além disso, buscar assistir às partidas em ambientes acolhedores e socialmente positivos pode contribuir para transformar a experiência em um momento de lazer, e não de sofrimento.
Durante os jogos da Copa do Mundo, o comportamento do torcedor revela aspectos fundamentais do funcionamento do cérebro humano. Esses processos tornam-se ainda mais evidentes, mostrando que, no campo ou nas arquibancadas, o jogo também acontece dentro do cérebro, segundo as pesquisas de Zubernis.
Que comecem os jogos!
*Janaina Tintori é graduada em Enfermagem, Mestre e Doutora em Ciências e professora universitária do curso de Enfermagem do Centro Universitário Internacional Uninter.





