Mesmo com emprego e renda, muitas famílias brasileiras da classe média enfrentam dificuldades para manter as contas em dia. Financiamentos, cartões de crédito, mensalidades escolares, plano de saúde e outras despesas fixas passaram a consumir uma parcela cada vez maior do orçamento.
Em junho de 2026, 81,6% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio. Além disso, 29,9% estavam com contas atrasadas e 12,2% afirmaram não ter condições de pagar os débitos vencidos.
Para o contador, professor universitário e especialista em finanças André Charone, autor do livro A Verdade Sobre o Dinheiro, a classe média vive uma vulnerabilidade financeira que muitas vezes não aparece à primeira vista.
“Ela costuma parecer protegida porque tem emprego, renda e acesso ao crédito. Porém, boa parte do salário já chega comprometida com financiamento do imóvel, prestação do carro, escola, plano de saúde e compras parceladas”, explica.
Entre as famílias endividadas, 29,3% da renda mensal estava, em média, comprometida com dívidas. Quase uma em cada cinco destinava mais da metade dos rendimentos para o pagamento desses compromissos.
Parcelas pequenas, problema grande
Um dos principais riscos está na soma de várias prestações consideradas pequenas. Assinaturas, compras parceladas, aplicativos, seguros e financiamentos podem parecer inofensivos separadamente, mas comprometem uma parcela relevante da renda quando acumulados.
“O consumidor muitas vezes não olha para o valor total da compra, mas apenas para o tamanho da parcela. O problema é que várias prestações pequenas criam um tipo de endividamento invisível e retiram qualquer capacidade de poupar ou enfrentar um imprevisto”, alerta Charone.
O especialista ressalta que estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. Um financiamento imobiliário, por exemplo, pode fazer parte de um planejamento saudável. O sinal de perigo aparece quando a família precisa usar uma dívida para pagar outra ou recorre ao cartão e ao cheque especial para despesas básicas.
Padrão de vida depende do crédito
A situação é agravada porque muitas despesas da classe média são difíceis de reduzir rapidamente. Educação, saúde, transporte, moradia e financiamentos formam uma estrutura mensal relativamente rígida.
“Nem sempre se trata de ostentação. Muitas famílias estão tentando manter aquilo que consideram básico, como uma boa escola, plano de saúde e um carro. O problema começa quando esse padrão só consegue ser mantido por meio de crédito”, afirma.
Segundo Charone, o aumento da renda também pode criar uma falsa sensação de segurança. Quando todo reajuste salarial é imediatamente incorporado ao padrão de consumo, a família continua sem construir reserva financeira.
Como sair do endividamento
Para quem já está com dificuldades, o primeiro passo é listar todas as dívidas, identificando valores, juros, número de parcelas e vencimentos. A prioridade deve ser dada aos débitos mais caros, como cartão de crédito rotativo e cheque especial.
“Antes de renegociar, é preciso saber exatamente quanto se deve. Também é necessário suspender novas compras parceladas e ajustar o padrão de vida à renda disponível, e não ao limite oferecido pelo banco”, orienta.
O especialista alerta ainda que uma renegociação não deve ser escolhida apenas pelo desconto ou pelo valor reduzido da parcela. Em alguns casos, o prazo excessivamente longo mantém o orçamento comprometido durante anos.
“A verdadeira estabilidade financeira não está no tamanho do salário nem no limite do cartão. Ela está na capacidade de pagar as despesas, enfrentar imprevistos e ainda reservar uma parte da renda para o futuro”, conclui André Charone.
Sobre André Charone
André Charone é contador, professor universitário, Mestre em Negócios Internacionais pela Must University (Flórida-EUA), possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV (São Paulo – Brasil) e certificação internacional pela Universidade de Harvard (Massachusetts-EUA) e Disney Institute (Flórida-EUA).
É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional.
Seu mais recente trabalho é o livro “Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática”, em que apresenta um guia realista para transformar negócios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estratégias de importação, exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários corretos, além de dicas práticas de negociação e prevenção contra armadilhas no comércio internacional.
Disponível em versão física: https://loja.uiclap.com/titulo/ua111005/
e digital: https://play.google.com/store/books/details?id=nAB5EQAAQBAJ&pli=1
Instagram: @andrecharone
Imagem André: Divulgação / Consultório da Fama





