Estratégia na recuperação de petróleo
Wilson Galvão – Agir/UFRN
Fotos: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN
Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) resultou em duas patentes que unem nanotecnologia, inovação industrial e potencial impacto econômico. Os resultados envolvem a produção de nanopartículas de alumina com propriedades controladas e a formulação de um nanofluido voltado à recuperação avançada de petróleo, tecnologias que podem encontrar aplicações em áreas tão diversas quanto tratamento de água, catálise industrial, materiais avançados e o setor energético.
À frente da pesquisa está a doutoranda Camila Louyse Oliveira da Rocha, integrante do Laboratório de Sistemas Metal-Cerâmica (LSMC). Para ela, o principal diferencial das invenções está na capacidade de transformar conhecimento científico em soluções com potencial de aplicação prática. “As nanopartículas de alumina possuem potencial de aplicação em áreas como tratamento de água, adsorção, catálise, energia e materiais avançados. Trata-se de um material versátil, que pode contribuir para diferentes tecnologias de interesse industrial e social”, afirma.
De forma simples, nanopartículas são partículas extremamente pequenas, com dimensões medidas em nanômetros, enquanto um nanofluido é um líquido ao qual são adicionadas nanopartículas para conferir novas propriedades ou melhorar seu desempenho.
As tecnologias foram desenvolvidas no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia de Materiais da UFRN (Ppgcem/UFRN). A primeira patente, intitulada Método de Síntese por Coprecipitação de Alumina Nanométrica, descreve uma rota de produção de nanopartículas de óxido de alumínio com elevada área superficial, alta porosidade e dimensões nanométricas controladas. Já a segunda, denominada Nanofluido à base de óxido de alumínio estabilizado com poliacrilato de sódio para aplicação em recuperação avançada de petróleo, utiliza as nanopartículas desenvolvidas na primeira tecnologia em uma aplicação específica voltada à indústria petrolífera.

Impactos das invenções
Embora complementares, as duas patentes representam produtos distintos. A primeira fornece um nanomaterial com múltiplas possibilidades de uso, enquanto a segunda explora uma dessas aplicações para aumentar a eficiência da extração de petróleo em reservatórios já existentes. A estratégia permite ampliar o aproveitamento de recursos energéticos sem a necessidade de novas áreas de exploração.
“No cotidiano, os impactos da primeira invenção podem ser percebidos em tecnologias relacionadas à purificação de água, à remoção de contaminantes, ao desenvolvimento de catalisadores industriais e à fabricação de materiais cerâmicos avançados. Graças à elevada área superficial e à porosidade controlada, as nanopartículas apresentam características que favorecem processos mais eficientes e com potencial de redução de custos quando comparados a materiais convencionais”, explica Camila Louyse.
Já o nanofluido desenvolvido pelos pesquisadores foi projetado para atuar em uma etapa conhecida como recuperação avançada de petróleo. Nessa fase, busca-se extrair o óleo que permanece retido nas rochas mesmo após a aplicação dos métodos convencionais. Em ensaios laboratoriais, a tecnologia promoveu uma recuperação adicional de aproximadamente 15% do petróleo residual, resultado considerado promissor para o setor.
“O uso de nanomateriais com propriedades controladas pode favorecer processos mais eficientes e economicamente viáveis para a indústria do petróleo”, destaca Camila Louyse. Segundo a pesquisadora, outro diferencial importante é a estabilidade do nanofluido em meio salino por até 72 horas, característica fundamental para aplicações em condições semelhantes às encontradas em reservatórios petrolíferos.
Viabilidade em escala industrial
Além do desempenho técnico, os pesquisadores ressaltam vantagens relacionadas à produção do material. Entre os diferenciais estão o baixo custo das matérias-primas utilizadas, a simplicidade do processo de síntese e o controle preciso das propriedades das nanopartículas. Esses fatores ampliam as perspectivas de transferência da tecnologia para o setor produtivo e reforçam sua viabilidade em escala industrial.

A primeira patente tem como inventores a doutoranda Camila Louyse Oliveira da Rocha, os professores Carlos Alberto Paskocimas, Antônio Eduardo Martinelli e Rubens Maribondo do Nascimento, o doutorando Matheus Tenório e os pesquisadores Leôncio Augusto Queiroz da Silva e Carlos Vinícius Queiroz Batista da Silva. Na segunda patente, além de Camila Louyse, Matheus Tenorio, Carlos Alberto Paskocimas e Antonio Eduardo Martinelli, participaram os pesquisadores Gregory Vinicius Bezerra de Oliveira, Marcos Allyson Felipe Rodrigues e Alcides de Oliveira Wanderley Neto. A participação de diferentes laboratórios e áreas do conhecimento evidencia o caráter multidisciplinar da pesquisa.
Segundo Camila, o processo de patenteamento representa uma etapa estratégica para aproximar universidade e sociedade. “O patenteamento protege a propriedade intelectual, evidencia o potencial de inovação da pesquisa acadêmica e fortalece a aproximação entre a Universidade e o setor produtivo, possibilitando a transferência de tecnologias para a sociedade e contribuindo para o desenvolvimento científico, tecnológico e econômico do país”, afirma.
As duas tecnologias já foram desenvolvidas e validadas em laboratório. Atualmente, a equipe trabalha no aperfeiçoamento da rota de síntese das nanopartículas e na otimização da formulação dos nanofluidos, ao mesmo tempo em que mantém contatos com empresas interessadas em avaliar possibilidades de escalonamento industrial. Desenvolvida no LSMC, em colaboração com pesquisadores do Laboratório de Engenharia de Reservatórios (LabRes) e do Laboratório de Tecnologia de Tensoativos (LTT), a pesquisa demonstra como a articulação entre ciência, inovação e desenvolvimento tecnológico pode gerar soluções capazes de impactar diferentes setores produtivos, da indústria de materiais ao segmento energético. LEIA NO PORTAL UFRN





