Pesquisas classificam macambiras como espécie-chave cultural e ecológica
Raiane Miranda e Juliana Holanda – LabCAm-Agecom/UFRN
Estudos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) aprofundam o conhecimento sobre as macambiras, bromélias típicas do semiárido brasileiro. Os resultados revelam a importância dessas plantas tanto para o meio ambiente quanto para a sobrevivência das comunidades que delas dependem.
As bromélias, plantas que crescem em formato de roseta, sempre tiveram importância ecológica associada à capacidade de acumular água, característica comum entre as espécies da Mata Atlântica, que auxilia na manutenção da fauna local. No entanto, as macambiras, típicas do semiárido brasileiro, não compartilham essa particularidade, mas se revelaram igualmente cruciais para a biodiversidade da caatinga por sua estrutura e relação com a fauna.
As macambiras abrangem as espécies do gênero Bromelia e Encholirium, particularmente as macambira-verdadeira (Bromelia laciniosa), macambira-vermelha (Bromelia arenaria) e a macambira-de-flecha (Encholirium spectabile). O estudo explica que as macambiras formam uma estrutura composta por múltiplos indivíduos, conhecida como touceiras. Esses agrupamentos desempenham um papel essencial para a fauna local, especialmente durante o período de seca.

Essa descoberta foi demonstrada no estudo The Rupicolous Bromeliad (Encholirium spectabile) as a Keystone Species for Brazilian Semiarid Biodiversity, conduzido pelo pós-doutorando do Programa de Pós-graduação em Ecologia (Ppgeco/UFRN), Jaqueiuto Jorge da Silva, em parceria com o Laboratório de Herpetologia (LabHerpeto/UFRN) e o Laboratório de Processos Ecológicos e Biodiversidade (LaPeB/UFRN).
“Elas criam uma arquitetura com vários indivíduos, que chamamos de touceiras, e esses espaços são fundamentais para a fauna da Caatinga, principalmente nos períodos de seca”, afirma Jaqueiuto. O pesquisador explica que, em épocas de poucas chuvas, as macambiras conseguem manter a umidade do ar superior à do ambiente externo, além de regular a temperatura, funcionando como um oásis e servindo de abrigo para animais.
As macambiras também demonstram a capacidade de modificar o ambiente em que se instalam, atuando no que os ecologistas chamam de engenharia de ecossistemas. Ao ocupar lajedos (formações rochosas), essas plantas atraem animais que se associam a elas. “A macambira também se beneficia dessa relação, aproveitando restos de alimentos e fezes deixados pelos animais, que funcionam como adubo”, explica o pesquisador.

Além disso, a floração da macambira disponibiliza nutrientes que atraem uma fauna diversa, incluindo aves, morcegos e insetos. “É única, pois atrai desde baratas, que, geralmente, não são bem-vistas, até beija-flores, que são admirados por sua beleza. Essa interação com a fauna torna a macambira uma espécie-chave para o ambiente”, acrescenta Jaqueiuto.
A Relação com os seres humanos
A relação entre o ser humano e a macambira é antiga, datando de antes da colonização. O próprio nome macambira tem origem no Tupi, refletindo saberes e usos passados dos povos indígenas.
Na pesquisa mais recente de Jaqueiuto, intitulada Macambiras: Espécies-Chave Culturais que Simbolizam o Povo Sertanejo e Sustentam a Biodiversidade no Semiárido, a planta é considerada uma espécie-chave cultural. Espécies-chaves culturais são aquelas que desempenham um papel importante não apenas na biodiversidade, mas também na cultura e na existência de comunidades tradicionais, tornando-se símbolos dessas populações. No caso das macambiras, elas representam um elemento cultural do povo sertanejo.

Publicado em 2025, o estudo envolveu uma revisão bibliográfica e entrevistas com 48 moradores de três comunidades no município de Santa Maria (RN). A pesquisa revelou o profundo vínculo dos habitantes com as plantas. O trabalho destaca também a forma que essas plantas são usadas pelos moradores locais como alimento, matéria-prima para artesanato, cercas vivas, ornamentos e até mesmo como símbolos culturais.
“Isso cria uma conexão profunda entre o povo sertanejo e a macambira, chegando ao ponto de, em alguns casos, eles só sobreviverem graças a ela como último recurso”, relata o pesquisador. Ele explica que, em períodos de escassez extrema, como as grandes secas de 1930 e 1950, as macambiras se tornaram o último recurso para a sobrevivência, sendo usadas para a fabricação de farinha, que alimentava as pessoas, e para alimentar o gado com a planta queimada. Além disso, a planta é utilizada também em tratamentos medicinais para diversos sintomas, como vermes e bactérias, além de ser utilizada como protetor solar, conforme tradições locais.

Jaqueiuto enfatiza o valor dessa pesquisa para o desenvolvimento social e acadêmico. Ele destaca, por exemplo, o caso do protetor solar: “No âmbito acadêmico, se investirmos em pesquisas sobre isso e descobrirmos que esse protetor é mais eficaz e menos poluente, teríamos uma grande vantagem. Esse conhecimento tradicional poderia se transformar em um produto de uso universal”, conclui.
COP30
Jaqueiuto Silva ainda ressalta o papel das macambiras diante da crise climática e da insegurança alimentar. “Se a macambira é uma alternativa alimentar, investir na melhoria da extração e nas técnicas de preparação da farinha produzida pela planta pode ser importante para a população. Quem sabe, seja uma alternativa alimentar viável”, analisa o pesquisador.

A pesquisa da UFRN está conectada a temas que serão discutidos na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Conferência das Partes), evento realizado em Belém, no Pará, entre os dias 10 e 21 de novembro. O encontro deve reunir representantes de 148 países, cientistas, jornalistas, sociedade civil, instituições públicas e privadas para debater sobre o clima
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