Atenção fragmentada: por que o cérebro não resiste às notificações?

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Especialista explica como recompensas imprevisíveis podem recalibrar a atenção e por que a saída não é apenas proibir a tela

Curtida, notificação, comentário. Cada um desses estímulos chega de forma imprevisível, e é justamente a imprevisibilidade que prende a atenção. Para a neurocientista Lívia Ciacci, parceira do Supera- Estimulação Cognitiva, o mecanismo não é força de expressão: as plataformas digitais operam no mesmo esquema de recompensa que torna os caça-níqueis difíceis de largar.

“As plataformas digitais exploram esse descompasso. Elas funcionam como os caça-níqueis faziam: entregam recompensas imprevisíveis — curtidas, notificações, comentários — no exato esquema de reforço que mais libera dopamina no sistema de recompensa, e que é o mais difícil de largar”, afirma a neurocientista.

O descompasso a que ela se refere é biológico. Os sistemas de recompensa, movidos a dopamina, estão a todo vapor durante a adolescência, enquanto o córtex pré-frontal, responsável pelo autocontrole, só atinge maturidade funcional depois dos 20 anos. Acelerador forte, freio fraco: a receita biológica da impulsividade.

O efeito no dia a dia aparece na relação com a espera. “Recompensas imediatas e imprevisíveis treinam o cérebro a tolerar cada vez menos a espera. (…) Um cérebro condicionado ao ‘agora’ tem mais dificuldade com o ‘espere, escute, ceda’”, explica. Habilidades como empatia, negociação e resolução de conflito exigem exatamente o oposto: tolerar frustração e adiar a gratificação.

A boa notícia, segundo ela, é que o quadro é reversível. Lívia recorre a uma analogia para descrever o que chama de recalibração da atenção:

“É o efeito ‘refrigerante e água’. Quem toma refrigerante o dia inteiro acha a água sem graça — porque o paladar foi sequestrado pelo excesso de açúcar. Com a atenção acontece o mesmo: o tédio diante de atividades não digitais nasce da comparação inconsciente com o entretenimento hiperestimulante do celular. O livro não ficou chato; o cérebro foi recalibrado para achar chato tudo que não pisca colorido. A boa notícia é que essa calibração é reversível — o paladar cognitivo volta a apreciar a ‘água’ quando o excesso de ‘refrigerante’ diminui e experiências reais e ricas voltam a ter espaço.”

A aposta da neurocientista para um uso fortalecedor e saudável do celular e de tudo que a tecnologia oferece é a educação midiática. “A precaução ambiental (menos tela) e a capacidade crítica interna (educação midiática) devem se somar”, defende. A diferença, compara, é a mesma que existe entre trancar o armário de doces e ensinar a criança a decidir o que comer.

O papel da família também muda de lugar. “Regular começa pelo espelho”, resume. E completa: “Proibir sem mediar é como ensinar a nadar jogando a criança na piscina; mediar é entrar na água junto.” Na prática, assistir junto, comentar e perguntar o que a criança acha do que está vendo rende mais do que qualquer bloqueio.

É nesse ponto que entra o trabalho de estimulação cognitiva. “É exatamente esse propósito da estimulação cognitiva: oferecer ao cérebro um estímulo concreto, progressivo e recompensador o bastante para competir com a tela, reeducando a atenção em vez de apenas confiscá-la”, afirma.

Como reeducar a atenção no dia a dia

  • Troque a bandeira da proibição pela da substituição: em vez de “tira o celular”, proponha proteger o sono, a brincadeira e as refeições sem tela.
  • Comece pelo exemplo: não adianta pedir que o filho largue o celular no jantar enquanto o adulto responde e-mail na mesa.
  • Mediar supera restringir: assistir junto, comentar e perguntar “você acha que isso é real?” vale mais que qualquer bloqueio.
  • Ofereça ao cérebro o que ele busca na tela, ou seja, recompensa, novidade e pertencimento, em versão real: esporte, música, arte, projetos de interesse, grupos presenciais e desafios com progresso visível.
  • Proteja as experiências que a tela desloca: sono, brincadeira livre, conversa cara a cara e leitura.
  • Invista em educação midiática: entender como os algoritmos funcionam e como as plataformas exploram os circuitos de recompensa é a intervenção que ataca a causa.

Sobre o Supera

O Supera é uma empresa educacional de estimulação cognitiva brasileira, sediada em São José dos Campos e com mais de 250 unidades em todo território nacional. Fundada há 20 anos, possui metodologia pioneira, focada na prevenção e validada por estudo científico conduzido por pesquisadores da USP, responsável por desenvolver habilidades cognitivas e socioemocionais fundamentais para a vida diária de crianças, adolescentes, adultos e idosos. O método oferece atividades variadas, que envolvem novidades e desafios, adequadas às diferentes faixas etárias. 

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