Estudo apresenta proposta para enxergar tudo como um único estado quântico
Adrielen Vilela – Ascom ECT/UFRN
A busca por uma teoria capaz de unificar as leis da Física atravessa gerações de cientistas. Apesar dos grandes avanços da mecânica quântica, da relatividade e da cosmologia, ainda existe uma dificuldade central: as equações que descrevem o mundo das partículas nem sempre se encaixam com as que explicam o comportamento do Universo em grande escala.
É nesse desafio que se insere a proposta exposta no dia 23 de abril deste ano pelo professor da Escola de Ciências e Tecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ECT/UFRN), Efrain Pantaleón Matamoros. A apresentação teve como base o artigo intitulado Unified State Function: A Quantum-Geometric Framework for Gravitation, Cosmology, and Particle Physics, publicado pelo docente em junho de 2025, disponível no repositório aberto de dados e documentos científicos Zenodo.
O trabalho parte de uma questão fundamental: seria possível encontrar uma única função capaz de descrever as transformações da matéria, da energia e do espaço-tempo, desde o microcosmo até o Universo como um todo?

Estado quântico global
A proposta da Função de Estado do Universo (FEU) é inspirada no conceito de função de estado da mecânica quântica que descreve todas as possibilidades de um sistema físico. A FEU amplia essa lógica para o próprio Universo. Em vez de tratar cada fenômeno de forma separada, ela sugere que tudo pode ser descrito como parte de um único estado quântico global. No artigo que fundamenta sua teoria, o professor revela esse objetivo ao afirmar que busca “encontrar uma função que possa explicar o fenômeno que deu origem ao nosso Universo e, se possível, aquela que possa gerar as leis físicas existentes”.
Diferentemente de uma onda física comum, a função proposta não representa uma vibração material no espaço. Ela é uma função de estado: uma ferramenta matemática que descreve as condições de transformação de um sistema físico. Em termos mais simples, ela busca indicar como um estado da realidade pode se transformar em outro, levando em conta fatores como energia e o tempo próprio de existência de cada estado.
Para o professor, cada estado físico possui um tempo de existência durante o qual mantém suas propriedades. Quando esse tempo se altera, o sistema pode passar por uma transformação. Assim, fenômenos muito rápidos, como os do micromundo, e fenômenos muito lentos, como os do macromundo, poderiam ser compreendidos dentro de uma mesma estrutura teórica.
Um sistema em constante transformação
A proposta também parte da ideia de que nenhum sistema se transforma espontaneamente sem a presença de algum tipo de trabalho externo, uma condição necessária para que um estado físico evolua para outro. Isso permite interpretar o próprio Universo como um sistema em constante transformação, desde seus estágios iniciais até as estruturas que observamos hoje.
Outro ponto central do artigo é que a função não deve ser interpretada como uma onda tradicional, destacando que “as funções propostas não correspondem a uma onda. Elas são funções de estado, que tendem a unificar as leis físicas conhecidas”. Ao aplicar essa lógica ao Universo, a teoria sugere que a evolução cósmica pode ser compreendida como uma sequência de transformações de estado. Cada fase, começando pelo próprio Big Bounce (Salto Quântico), corresponderia a condições físicas específicas, com inseparabilidade da energias e matéria, e a densidades de espaço tempo característicos.
Um dos aspectos mais instigantes da proposta é a tentativa de aproximar leis que, hoje, aparecem separadas nos modelos tradicionais. A função desenvolvida dialoga com equações fundamentais da Física, indicando que diferentes fenômenos podem ser descritos dentro de uma mesma estrutura matemática.
Nessa perspectiva, o Universo não seria apenas um conjunto de objetos distribuídos no espaço, mas também uma totalidade dinâmica. Matéria, energia e densidade espaço-tempo passam a ser vistos como manifestações de um mesmo processo em transformação. É nesse sentido que a ideia de conexão ganha força: não apenas como metáfora, mas também como uma possibilidade física.
O Universo como uma unidade

Em uma representação visual apresentada pelo professor, intitulada A Sinfonia das Frequências, o Universo é ilustrado como uma continuidade de estados organizados ao longo do tempo, como se diferentes fases da realidade fossem variações de uma mesma estrutura fundamental.
No chamado “amanhecer quântico”, associado à escala de Planck, o Universo aparece como um ambiente de altíssimas frequências, onde a geometria deixa de ser contínua e passa a apresentar características discretas e granulares. Em seguida, a imagem sugere uma “zona de ressonância”, em que as forças fundamentais podem ter atuado de forma unificada, revelando padrões de interferência e acoplamento entre diferentes interações.
A transição para o espaço-tempo clássico surge como um momento decisivo: é quando a estrutura quântica dá origem, gradualmente, à geometria contínua descrita pela relatividade. Por fim, no regime cosmológico atual, predominam as chamadas “baixas frequências”, nas quais os fenômenos seguem as leis já conhecidas, ainda que carreguem marcas das estruturas mais profundas que os originaram.
Essa leitura reforça a ideia central da teoria: o Universo não é composto por camadas independentes, mas por níveis interligados de uma mesma realidade, comportando-se como um sólido quântico. A “sinfonia” ou a “dança do Universo”, nesse sentido, não são apenas metáforas visuais, mas também formas de traduzir, em linguagem acessível, a hipótese de que tudo o que existe pode fazer parte de um único processo físico em transformação contínua, em que cada transformação revela pistas de uma unidade mais profunda que ainda está em processo de compreensão. LEIA NO PORTAL UFRN






