Caatinga decifrada

WhatsApp
Facebook
X
Threads
Telegram
Pesquisadores ensinam computadores a decifrar a paisagem semiárida por meio da topografia e da temperatura do solo, atingindo acerto histórico no mapeamento potiguar. Foto: Cícero Oliveira - Agecom/UFRN

Método aperfeiçoa mapeamento por satélite e quantifica cobertura vegetal em 58% da área do bioma Caatinga no RN

Paiva Rebouças – Agecom/UFRN

Do espaço, a Caatinga costuma pregar peças nos sensores orbitais mais avançados do planeta. Durante os meses secos de estiagem, a vegetação perde a folhagem verde e ganha um tom cinzento uniforme. Sem folhas nos galhos, os satélites confundem vegetação com solo exposto e afloramentos rochosos.

Para solucionar essa confusão óptica, pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) criaram uma estratégia pioneira no monitoramento ambiental do semiárido brasileiro. A equipe ensinou algoritmos de inteligência artificial a cruzar imagens de satélite com dados de relevo, temperatura da superfície e estimativas de chuvas modeladas para o ano analisado.

Publicado na revista científica Environmental Monitoring and Assessment, da Springer Nature, o trabalho foi desenvolvido pela egressa do Programa de Pós-Graduação em Geografia (Geoceres) do Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES/UFRN), Alíbia Deysi Guedes da Silva. A pesquisa teve a colaboração das pesquisadoras Sara Fernandes Flor de Souza e Rebecca Luna Lucena, integrantes do Geoceres/UFRN, além do pesquisador João Santiago Reis, vinculado à Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

A pesquisadora Alíbia Deysi Guedes da Silva lidera estudo que utiliza inteligência artificial na análise do cruzamento de imagens de satélite com dados geográficos, para garantir maior precisão no mapeamento da Caatina. Foto: professor Washington de Jesus Sant’Anna da Franca Rocha

A investigação, que analisou o bioma Caatinga no Rio Grande do Norte durante o ano de 2023, exigiu o poder computacional da plataforma Google Earth Engine (GEE), ambiente em nuvem capaz de analisar grandes volumes de dados planetários. No coração do sistema, operou o algoritmo Random Forest, expressão em inglês que significa floresta aleatória. O método funciona como um comitê virtual de especialistas, no qual centenas de modelos matemáticos analisam diferentes aspectos da paisagem semiárida. Cada modelo dá sua opinião sobre o que existe em cada pedaço do terreno, e a resposta final é definida pelo voto da maioria, garantindo maior precisão no mapeamento.

O objetivo central da pesquisa foi mapear o uso e a cobertura da terra, tema conhecido no meio científico pela sigla LULC, originada do termo em inglês Land Use and Land Cover (Uso e Cobertura da Terra). Para obter um retrato mais fiel da paisagem, os cientistas dividiram a área em seis compartimentos distintos, cruzando bacias hidrográficas com domínios geomorfológicos, que correspondem a grandes unidades do relevo relacionadas à estrutura geológica.

O modelo matemático combinou 153 camadas de dados. A lista reuniu imagens do satélite Landsat 8, frações de solo, vegetação e água estimadas a partir dessas imagens, índices espectrais, temperatura da superfície e estimativas de precipitação. As medições pluviométricas da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (EMPARN) foram utilizadas para construir o modelo de precipitação. A altitude e a inclinação das encostas vieram de dados topográficos da missão SRTM, sigla em inglês para Shuttle Radar Topography Mission (Missão Topográfica de Radar Embarcado).

Comparação da classificação do uso e da cobertura da terra utilizando uma abordagem por bacia hidrográfica versus a separação por domínios geomorfológicos em cada bacia hidrográfica. Imagem: Pesquisa

Mapeamento da Caatinga

A acurácia global média atingiu 83%, com índice estatístico Kappa de 0,80, que indica a concordância entre a classificação e os dados de referência. O balanço revelou que cerca de 58% da área do bioma Caatinga no Rio Grande do Norte apresenta cobertura vegetal, o equivalente a quase três milhões de hectares. Os usos e as classes associados à influência humana correspondem a mais de 41% do mesmo território, com 1,77 milhão de hectares ocupados por pastagens e 135 mil hectares por lavouras agrícolas.

A análise considerou diferenças ambientais e de uso da terra entre as regiões do estado. Nas bacias sedimentares de solo plano e profundo, destacam-se lavouras irrigadas de frutas, projetos eólicos e salinas industriais. Já no embasamento cristalino da Depressão Sertaneja, como na região do Seridó, o solo raso e pedregoso abriga a agricultura familiar de subsistência, rebanhos leiteiros e a mineração de scheelita.

Os autores identificaram que a altitude, a latitude, a longitude e as variáveis climáticas estiveram entre os dados de maior importância na classificação. Na comparação com o mapeamento por bacias hidrográficas inteiras, a divisão por domínios geomorfológicos permitiu representar melhor a distribuição de algumas classes, como as áreas agrícolas.

Mapa do estado do Rio Grande do Norte destacando as divisões da área de estudo. Imagem: Pesquisa

Para além do avanço científico e metodológico, os pesquisadores reforçam que o estudo apresenta importante dimensão social e territorial. “Ao produzir informações mais detalhadas sobre a distribuição da vegetação e dos diferentes usos da terra, a pesquisa pode subsidiar ações de planejamento territorial e ambiental, gestão dos recursos naturais e tomada de decisão em diferentes escalas. Esse tipo de conhecimento é especialmente relevante para o semiárido potiguar, onde o uso do território envolve atividades como agricultura, pecuária, mineração, expansão urbana e de empreendimentos de energia renovável”, disse a pesquisadora Alíbia Deysi Guedes da Silva, mestre pelo Geoceres/UFRN.

Ainda segundo Alíbia, os resultados podem contribuir para orientar políticas e ações voltadas ao uso mais adequado e sustentável do território. “Ao ampliar a compreensão sobre a relação entre relevo, clima, vegetação e ocupação da terra, o estudo também oferece informações que podem apoiar o ordenamento territorial e o planejamento de estratégias de gestão ambiental no Rio Grande do Norte”, completa. LEIA NO PORTAL UFRN

WhatsApp
Facebook
X
Threads
Telegram
Categorias