Trabalhadores expostos ao sol: risco de câncer de pele vai além dos dias de praia

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Crédito: Magnific

Motoristas de aplicativos, motoboys, entregadores, trabalhadores da construção civil e até quem passa horas diante de uma janela podem acumular exposição à radiação ultravioleta; dermatologista explica como identificar sinais suspeitos e prevenir a doença

São Paulo, outubro de 2026 – A exposição solar nem sempre acontece na praia, na piscina ou durante atividades ao ar livre nos momentos de lazer. Para milhões de trabalhadores, o contato com a radiação ultravioleta faz parte da rotina profissional e pode passar despercebido. Motoristas de aplicativos e taxistas, motoboys, entregadores, carteiros, profissionais da construção civil, agricultores, jardineiros, garis, vendedores ambulantes e trabalhadores de manutenção externa estão entre aqueles que podem passar horas sob o sol ao longo do expediente. O risco também merece atenção em ambientes fechados: quem trabalha em casa ou no escritório próximo a janelas com incidência direta de luz solar pode receber radiação ultravioleta, especialmente UVA, que atravessa o vidro comum.

O problema é que a exposição acumulada ao longo dos anos nem sempre provoca sinais imediatos, mas contribui para os danos à pele e aumenta a preocupação com o desenvolvimento do câncer cutâneo. No Brasil, o câncer de pele não melanoma está entre os tipos mais incidentes da doença, enquanto o melanoma, embora menos frequente, apresenta maior potencial de gravidade. Nesse cenário, reconhecer alterações na pele e adotar medidas de proteção no dia a dia são atitudes importantes para reduzir riscos.

Segundo José Roberto Fraga Filho, dermatologista, membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e diretor clínico do Instituto Fraga de Dermatologia, a exposição solar frequente deve ser considerada mesmo quando não há queimaduras aparentes. Pessoas que trabalham ao ar livre precisam de cuidados contínuos, e não apenas nos períodos de férias ou nos dias de calor intenso.

Quem trabalha exposto ao sol precisa redobrar os cuidados

A rotina profissional influencia diretamente a quantidade de radiação solar recebida. Motoristas de aplicativos e taxistas, por exemplo, podem permanecer por longos períodos dentro do veículo, com exposição desigual entre os lados do corpo. Motoboys, ciclistas de entrega, carteiros e trabalhadores da construção civil enfrentam, além da exposição prolongada, a dificuldade de encontrar sombra durante o expediente.

Agricultores, jardineiros, paisagistas, garis, agentes de trânsito, profissionais de limpeza urbana, trabalhadores de manutenção de redes elétricas e técnicos que atuam em instalações externas também precisam incorporar a fotoproteção à rotina de trabalho. Em atividades realizadas em locais abertos, o horário, a duração da jornada, a possibilidade de pausas à sombra e o uso de roupas adequadas fazem diferença.

Já nos ambientes internos, a atenção deve considerar a posição da estação de trabalho. Quem permanece diariamente próximo a uma janela com incidência solar direta pode receber radiação UVA, que atravessa o vidro convencional. A intensidade da exposição depende de fatores como a distância da janela, a orientação do ambiente, o tipo de vidro e a existência de películas de proteção. Por isso, trabalhar em casa ou em um escritório não elimina automaticamente a necessidade de avaliar a exposição solar.

Regra do ABCDE ajuda a identificar sinais suspeitos

Manchas e pintas são comuns e, na maioria das vezes, benignas. No entanto, alterações de formato, cor ou tamanho merecem avaliação. Uma das ferramentas utilizadas para orientar a observação de pintas é a regra do ABCDE, que reúne cinco características que podem indicar suspeita de melanoma.

“Lesões que não cicatrizam, que sangram com facilidade, que apresentam crescimento progressivo, ou pintas escuras que estão aumentando de tamanho ou mudando de aspecto precisam ser avaliadas por um dermatologista”, explica José Roberto Fraga Filho.

A regra considera os seguintes aspectos:

  • A – Assimetria: uma metade da pinta é diferente da outra.
  • B – Bordas irregulares: os contornos são mal definidos ou apresentam recortes.
  • C – Cor: a lesão apresenta diferentes tonalidades, como marrom, preto, avermelhado ou outras cores.
  • D – Diâmetro: a pinta tem mais de 6 milímetros, embora lesões menores também possam ser suspeitas.
  • E – Evolução: há crescimento, mudança de cor, alteração de formato ou qualquer outra transformação recente.

A presença de uma dessas características não confirma o diagnóstico de câncer, mas indica a necessidade de avaliação médica. Também é importante observar feridas persistentes, lesões que sangram repetidamente e manchas que apresentam mudanças ao longo do tempo. Não é necessário esperar que uma pinta reúna todos os critérios para procurar atendimento.

Bronzeado não significa saúde

Ainda existe a associação cultural entre pele bronzeada e aparência saudável. Do ponto de vista dermatológico, porém, o escurecimento da pele após a exposição solar é uma resposta de defesa diante da radiação.

“Bronzeado é sinal de defesa da pele, não de saúde”, afirma o dermatologista. A exposição excessiva e cumulativa aos raios ultravioletas está relacionada ao desenvolvimento de câncer de pele e ao fotoenvelhecimento, que pode se manifestar por manchas, rugas e perda de elasticidade.

Pessoas de pele clara, olhos claros, com histórico de queimaduras solares ou antecedentes pessoais e familiares de câncer de pele apresentam fatores de risco importantes. Isso não significa, entretanto, que pessoas de pele negra ou morena estejam livres da doença. Todos os tons de pele precisam de proteção e atenção a alterações suspeitas.

Como se proteger durante a jornada de trabalho

A prevenção precisa considerar as condições reais de cada profissão. Para quem trabalha ao ar livre, o ideal é combinar diferentes medidas de proteção, sem depender exclusivamente do protetor solar.

Entre as recomendações estão:

  • Usar protetor solar de amplo espectro, com FPS 30 ou superior, nas áreas expostas, reaplicando conforme as orientações do produto e após suor intenso ou contato com água.
  • Utilizar chapéus, bonés com proteção adequada para orelhas e nuca, óculos com proteção UV e roupas que cubram a pele, preferencialmente com proteção ultravioleta.
  • Sempre que possível, organizar pausas e atividades para reduzir a exposição nos horários de maior intensidade solar.
  • Buscar locais com sombra durante os intervalos e evitar a exposição direta prolongada.
  • Em escritórios e ambientes domésticos, avaliar o uso de cortinas, persianas ou películas com proteção UV quando houver incidência solar direta e prolongada.
  • Manter o acompanhamento dermatológico, especialmente quando existem fatores de risco ou alterações na pele.

Para quem passa muitas horas dirigindo, é importante lembrar que o vidro do veículo não bloqueia necessariamente toda a radiação UVA. A proteção oferecida depende do tipo de vidro e de suas características. Por isso, a exposição durante o trajeto também deve entrar na conta dos cuidados diários.

Diagnóstico precoce faz diferença

Adiar uma consulta por medo de descobrir uma doença pode comprometer a identificação de alterações em estágios iniciais. No câncer de pele, o diagnóstico precoce aumenta as possibilidades de tratamento bem-sucedido e pode evitar procedimentos mais extensos.

A recomendação é procurar um dermatologista diante de pintas que mudam de aparência, feridas que não cicatrizam, lesões que sangram com facilidade ou manchas novas que despertam preocupação. Pessoas com maior risco também podem precisar de acompanhamento periódico individualizado.

A prevenção não depende de evitar completamente a luz do sol, mas de reduzir a exposição excessiva, incorporar medidas de proteção à rotina e não ignorar os sinais que a pele apresenta. Para quem trabalha diariamente sob o sol ou próximo a janelas com incidência direta, esse cuidado deve fazer parte da saúde ocupacional e dos hábitos cotidianos.

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