Karina Carrascoza*
Um termo de referência para o próximo concurso público de Blumenau, em Santa Catarina, provocou uma reação que merece ser observada com atenção. O documento prevê remuneração superior a R$ 21 mil para o cargo de cirurgião-dentista, com jornada de 20 horas semanais. Antes mesmo da publicação do edital, o valor repercutiu entre profissionais de todo o país e nas redes sociais. Para muitos, a primeira hipótese não foi a de que se tratava de uma remuneração possível, mas a de que deveria haver algum erro no documento.
O espanto diz muito sobre a realidade da Odontologia brasileira.
Até a publicação do edital, é evidente que as condições previstas no termo de referência podem ser modificadas. Não se trata, portanto, de antecipar conclusões sobre o concurso de Blumenau. O episódio, contudo, já revelou uma discussão muito mais ampla: por que uma remuneração elevada para um cirurgião-dentista causa tanta surpresa, enquanto salários incompatíveis com a responsabilidade e a qualificação exigidas pela profissão frequentemente passam quase despercebidos?
Quem acompanha concursos públicos na área de Odontologia conhece bem a heterogeneidade do cenário brasileiro. Profissionais com a mesma formação encontram, de município para município, remunerações radicalmente diferentes — por vezes para jornadas semelhantes e atribuições igualmente complexas. Leis locais, planos de carreira, gratificações e estruturas administrativas ajudam a explicar parte dessas diferenças. Mas não eliminam a pergunta central: qual é, afinal, o valor que o poder público atribui ao trabalho do cirurgião-dentista?
A resposta não pode ser encontrada apenas em uma planilha salarial.
Formar-se em Odontologia exige anos de estudo, investimento financeiro e aperfeiçoamento permanente. O exercício profissional envolve responsabilidade técnica, decisões clínicas e um compromisso direto com a saúde da população. No serviço público, esse trabalho ganha uma dimensão ainda maior, especialmente em um país no qual milhões de brasileiros dependem do sistema público para prevenção, diagnóstico e tratamento.
Ainda assim, criou-se uma espécie de normalização da remuneração insuficiente.
É justamente esse o ponto mais revelador da polêmica de Blumenau. Salários baixos para cirurgiões-dentistas em concursos públicos raramente se tornam assunto nacional. Poucos questionam se uma remuneração modesta é compatível com a formação exigida, a responsabilidade assumida e o impacto social da atividade. Quando aparece um valor significativamente superior ao padrão encontrado em parte dos concursos, porém, instala-se imediatamente a desconfiança.
Como se pagar bem fosse, por definição, um erro.
A discussão também expõe uma contradição presente no debate sobre o serviço público. Cobra-se eficiência, qualidade e atendimento humanizado. Espera-se que profissionais altamente qualificados permaneçam nas carreiras públicas e atendam populações cada vez mais demandantes. Mas nem sempre se discute com a mesma intensidade a necessidade de construir remunerações capazes de atrair, valorizar e reter esses profissionais.
Naturalmente, todo gasto público deve ser analisado com responsabilidade. Remuneração não pode ser discutida isoladamente da realidade orçamentária, das regras legais e da estrutura de cada carreira. Transparência e critérios técnicos são indispensáveis. Isso, porém, não significa aceitar como natural que profissionais altamente especializados sejam remunerados abaixo da responsabilidade que assumem.
O debate sobre os R$ 21 mil previstos no documento de Blumenau não deveria se resumir à pergunta sobre se o valor é alto demais. A questão mais importante talvez seja outra: por que nos acostumamos tanto a remunerações baixas que um salário capaz de reconhecer adequadamente uma profissão passa a parecer uma anomalia?
Independentemente do valor que venha a constar no edital definitivo, Blumenau já prestou um serviço involuntário ao debate nacional. O episódio colocou em evidência a profunda disparidade salarial da Odontologia no serviço público e revelou algo ainda mais preocupante: a facilidade com que naturalizamos a desvalorização profissional.
Talvez seja hora de inverter a pergunta. Em vez de apenas questionar por que um cirurgião-dentista poderia receber R$ 21 mil por uma jornada de 20 horas semanais, deveríamos perguntar por que, em tantos outros lugares do país, profissionais com a mesma formação, responsabilidade e importância para a saúde pública recebem valores que quase ninguém considera surpreendentemente baixos.
A verdadeira polêmica talvez não esteja no salário que chamou a atenção em Blumenau. Pode estar naquilo que aprendemos a aceitar como normal.
*Karina Carrascoza é professora, especialista em concursos de Odontologia e sócia da OdontoQuiz, referência nacional em preparação para concursos de Odontologia. Mestre em Farmacologia, Anestesiologia e Terapêutica (UNICAMP).Doutora em Saúde da Criança e do Adolescente (UNICAMP). Especialista em Endodontia (APCD). Especialista em Gestão Pública em Saúde (UNICAMP). Servidora Pública: 6 convocações em concursos públicos de odontologia.





