Do resíduo à nanotecnologia
Wilson Galvão – AGIR/UFRN
Fotos: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN
Roupas esportivas com proteção contra raios ultravioleta, embalagens inteligentes, tintas especiais, plásticos, revestimentos e até dispositivos eletrônicos podem, em um futuro próximo, ter em comum uma tecnologia desenvolvida a partir da solução para um problema ambiental. Essa é a proposta da patente Nanopigmento fluorescente à base de pontos quânticos de carbono obtidos a partir de efluente de lavanderia de jeans, seu processo de obtenção e seu uso, depositada no mês de junho, que transforma resíduos da indústria têxtil em um nanomaterial de alto valor tecnológico e com amplo potencial de aplicação industrial.
A inovação consiste na produção de nanopigmentos fotoluminescentes a partir do efluente gerado pelas lavanderias industriais de jeans. Em vez de ser tratado apenas como um resíduo de difícil destinação, esse material passa a servir como matéria-prima para a obtenção de pontos quânticos de carbono, nanomateriais capazes de emitir intensa fluorescência e apresentar importantes propriedades funcionais.
“O grande diferencial da tecnologia é reunir sustentabilidade e desempenho em um único material. Conseguimos transformar um resíduo industrial de grande impacto ambiental em um produto de altíssimo valor agregado, capaz de substituir pigmentos tradicionais e produtos de acabamentos especiais que apresentam maior impacto ambiental e, em alguns casos, até compostos com potencial cancerígeno”, explica o pesquisador e um dos inventores da tecnologia, Felipe Mendonça Fontes Galvão.
Além da fluorescência, os nanopigmentos apresentam potencial ação antimicrobiana e proteção contra radiação ultravioleta (UPF 50+), características que ampliam suas possibilidades de uso em diferentes segmentos industriais. Entre as aplicações já vislumbradas estão tecidos para moda esportiva, artigos têxteis com proteção UV, tintas, plásticos, revestimentos decorativos, materiais para impressão e embalagens inteligentes.

Economia circular
Segundo Felipe Galvão, a tecnologia permite que o consumidor utilize um produto sustentável sem sequer perceber sua origem. “No futuro, uma pessoa poderá vestir uma roupa produzida ou utilizar um produto com esse pigmento fluorescente sem imaginar que aquela inovação nasceu do reaproveitamento de um resíduo industrial que antes era considerado um problema ambiental”, afirma.
Desenvolvida em parceria com indústrias das cidades de Caruaru e Toritama, em Pernambuco, a pesquisa também representa uma resposta a um dos principais desafios ambientais enfrentados pelos polos de confecção do Nordeste, responsáveis por mais de 15% da produção nacional de jeans. A atividade industrial gera grandes volumes de efluentes que impactam diretamente o meio ambiente, como ocorre na bacia do Rio Capibaribe, em Pernambuco. Com a nova tecnologia, parte desse passivo ambiental pode retornar à cadeia produtiva na forma de um material de muito maior valor agregado.
“Essa patente mostra, na prática, como a economia circular pode gerar inovação. Em vez de enxergar o efluente apenas como descarte, passamos a tratá-lo como uma fonte de carbono para produzir nanomateriais com aplicações em diferentes setores da indústria”, destaca Felipe Galvão.
Do ponto de vista científico, a pesquisa reúne conceitos considerados estratégicos para o desenvolvimento sustentável, como nanotecnologia, química verde, logística reversa e upcycling. Além da utilização como nanopigmento fluorescente, os pontos quânticos de carbono também apresentam potencial para futuras aplicações em LEDs, sensores, dispositivos eletrônicos, telas OLED, sistemas fotônicos, bioimagem e até mesmo em tecnologias relacionadas à computação quântica.

Etapa industrial
Os primeiros protótipos já foram produzidos em escala laboratorial e aplicados em tecidos destinados à confecção de roupas esportivas, com resultados considerados promissores para as futuras etapas de escalonamento industrial e de transferência da tecnologia para empresas. A patente representa apenas a primeira etapa da plataforma tecnológica desenvolvida pelos pesquisadores. Atualmente, novas pesquisas estão voltadas ao desenvolvimento de pigmentos fluorescentes em diferentes cores, fibras fotoluminescentes, acabamentos funcionais para tecidos e aplicações em dispositivos emissores de luz. “Nosso objetivo é ampliar o uso dessa tecnologia para diferentes setores industriais e agregar ainda mais valor aos resíduos da indústria têxtil”, afirma Felipe.
A pesquisa foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química durante a tese de doutorado de Felipe Mendonça Fontes Galvão, sob a orientação dos professores José Heriberto e Domingos Fabiano, que contribuíram para consolidar a inovação e viabilizar sua proteção por meio de patente. Incentivar práticas de inovação e empreendedorismo é um dos objetivos estratégicos previstos no Plano de Gestão 2023–2027 da UFRN. Nessa perspectiva, a Agência de Inovação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Agir/UFRN) atua diretamente no apoio aos pesquisadores, contribuindo para o alcance do indicador 17 do plano, referente aos contratos de transferência de tecnologia. LEIA NO PORTAL UFRN





