Keillha Israely – Assistente Social Casa Durval Paiva – CRESS/RN 3592
Como diz a música, não aprendi a dizer adeus. Apesar da morte ser uma das únicas certezas na nossa vida, nós não estamos preparados para lidar com ela, e como é difícil se despedir, principalmente de alguém que gostamos.
Ao longo dos 7 anos de atuação, como assistente social, na casa de apoio à criança com câncer Durval Paiva, já perdi vários pacientes. Muitos, não consegui me despedir, porque foram partidas primárias: no hospital, em casa. Enfim, não foi possível fazer um fechamento. Mas, hoje eu quero compartilhar como foi difícil, me despedir de um paciente muito querido, que já está num processo de fim de vida e que me ensinou muito sobre a vida e o viver.
Vou me referir a ele como o popular, para preservar sua identidade. Ele tão articulado e articulador, chegou na instituição em 2021, para tratar um câncer ósseo. Menino do interior, cheio de sonhos, precisou parar um pouco sua vida para tratar uma doença tão severa, com internações longas, quimioterapia e depois uma longa cirurgia, vivenciou a primeira fase desse tratamento tão difícil. Depois, quando chegou uma etapa mais tranquila, resolveu desafiar orientações, e precisou enfrentar uma nova cirurgia, a possibilidade de perder a perna assustava, e ele era enfático em dizer que não aceitava, pediu ao médico e dizia a todos, sem minha perna eu não vivo.
Vivenciou mais cirurgias e quimioterapia, e a doença, cruel e nefasta não dava trégua, começou a invadir tudo, e a vida que ela tanto falava e queria desfrutar foi ficando cada vez mais difícil, pois, à medida que a doença avança, vem seus dissabores, dores, náuseas, internamento longo, enfim, tudo vai ficando mais difícil. Mas, ele, na oportunidade que encontra, vai para as festas, tira foto e faz vídeos com os artistas e, assim, vira um artista também, cheio de fé e perseverança ele vai vivendo e sobrevivendo. E, agora, nesse processo de fim de vida, ele precisa encarar também as marcas dessa doença tão grave e cruel, que assusta e afasta a muitos, mas também que não afasta quem o ama. Ele, logo ele que queria tanto viver.
Hoje, na sua “última” consulta, a médica pediu para ele evitar essa viagem longa e aproveitar a vida vivendo perto da sua família, amigos e no seu interior. E eu, que acompanhei todo processo me sinto na obrigação de aproveitar essa oportunidade e me despedir, mas como? Eu não aprendi a dizer adeus. Mas, soube chegar, segurar a mão, dizer que apesar de todo o trabalho que ele me dá, eu o amo muito e quero sempre o melhor para ele, e que desejo que ele viva, viva cada minuto e segundo. E ao falar para ele é como se falasse para mim também. Saio do quarto quase correndo, respiro fundo, seguro as lágrimas, afinal, outros pacientes estão me esperando. E o choro ficou para depois, pois não aprendi a dizer adeus, mas sofro e sinto com cada partida e despedida, assim como, muitos outros colegas assistentes sociais, psicólogos, enfermeiros, médicos, pois nós também sentimos e sentimos muito.





