Entre agulhas e brinquedos: como a infância pode continuar apesar do adoecimento oncológico

WhatsApp
Facebook
X
Threads
Telegram

Gilvania Guedes Teixeira Véras – Psicóloga Casa Durval Paiva – CRP: 17/4268

Vejo um menino entrando no hospital. Uma mão agarrada à da mãe, a outra segurando com firmeza uma espada de brinquedo. De um lado, o medo, um velho conhecido indesejado. Do outro, a coragem de enfrentar tudo à sua maneira. A mãe, adulta, acredita que enfrentará todos os monstros do dia e, assim, livrará o filho de todo mal. Mas ele, em sua infantil sabedoria, já entende: será ele quem enfrentará os monstros, com a mãe ao lado, como a guerreira que dá força à sua espada.

Qualquer diagnóstico representa uma ruptura na vida de uma criança, um momento de crise. Tomar remédios, receber injeções, fazer exames… nada disso faz parte da rotina de quem está saudável. Quando o diagnóstico é oncológico, carrega ainda o peso da palavra câncer. Um peso que não é dito em voz alta, porque “essas coisas” não se falam para uma criança. Mas, ainda assim, ela percebe. Percebe no clima de segredo, no sofrimento disfarçado, no rosto da mãe vermelho e molhado seguido de um “não é nada, filho”. E, claro, nas mudanças bruscas e escancaradas na rotina.

Mas, afinal, como é possível continuar sendo criança diante de tudo isso? Voltemos ao começo: a espada de brinquedo. Ela não é apenas um enfeite. É a maneira que aquela criança encontrou para enfrentar um mundo que de repente ficou assustador. Brincar, imaginar, transformar seringas em dragões e corredores em castelos é uma forma legítima de enfrentamento infantil.

É nesse contexto que a ludoterapia ganha relevância. Segundo Pereira (2021), trata-se de uma intervenção terapêutica crucial para auxiliar crianças a lidarem com sentimentos negativos e melhorarem sua qualidade de vida. O apoio psicológico é essencial desde o diagnóstico até o final do tratamento, não apenas para a criança, mas para toda a família envolvida. E nessa jornada, a presença da mãe, ou de quem cuida, é um escudo invisível, um abraço constante que sustenta.

Conforme Vieira (2025), a capacidade dos profissionais de oferecer acolhimento, demonstrar amor, carinho e respeito, e estabelecer laços de confiança com a família contribui para um ambiente hospitalar mais humano e seguro, o que, por sua vez, beneficia a criança ao proporcionar-lhe conforto e estabilidade.

Além disso, há espaços que acolhem com mais do que paredes. Acolhem com a alma. A Casa Durval Paiva é um desses lugares. Aqui, cuidamos de crianças e de suas famílias, porque sabemos que o tratamento não é só feito de medicamentos, mas também de presença, afeto e esperança. Nesse refúgio, as histórias se tocam, os silêncios falam, e os olhares dizem: “você não está só”.

As crianças podem encontrar em outras a certeza de que é possível atravessar esse desafio brincando, rindo, chorando, vivendo. E é nesse encontro com o outro, nesse cotidiano compartilhado, que a infância insiste em florescer, mesmo em solo árido. Porque onde há cuidado, há vida, e onde há vida, a infância resiste.

WhatsApp
Facebook
X
Threads
Telegram
Categorias