Do social ao corporativo: o impacto oculto das bets nas empresas

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Divulgação Anderson Ozawa, CEO da AOzawa Consultoria

Anderson Ozawa*

O debate sobre as apostas esportivas tomou conta do país. Fala-se sobre vício, endividamento das famílias, publicidade, regulamentação e saúde mental. Todos esses temas são legítimos e merecem atenção. Mas existe uma pergunta que praticamente ninguém está fazendo: Quanto as bets já estão custando às empresas brasileiras?

Não estou falando do dinheiro que o colaborador perde ao apostar, mas sim, daquele que a empresa deixa de ganhar. E essa diferença muda completamente a discussão.

Toda mudança social relevante, cedo ou tarde, produz impactos dentro das organizações. Foi assim com a transformação digital, com o trabalho remoto, a explosão das redes sociais e, agora, com as plataformas de apostas.

O erro é acreditar que esses fenômenos permanecem do lado de fora dos portões da empresa. As bets evidenciaram que talvez seja hora de reconhecer mais uma categoria de perdas: as comportamentais.

Nenhuma empresa perde dinheiro apenas porque um colaborador fez uma aposta esportiva, isso seria uma conclusão simplista. O problema começa quando determinados comportamentos passam a influenciar a capacidade de decisão, a produtividade, o equilíbrio financeiro e a exposição ao risco dentro da organização.

São perdas provocadas por comportamentos individuais que, quando observados coletivamente, passam a produzir efeitos econômicos relevantes para o negócio. E esse conceito não se limita às apostas, vale também para outras situações da nova economia digital, como o uso compulsivo de redes sociais durante o expediente, fraudes digitais, dependência tecnológica, golpes eletrônicos e outros comportamentos que afetam diretamente a performance das organizações. As bets apenas aceleraram esse debate.

Imagine uma empresa com mil colaboradores. Agora imagine que parte deles interrompa diversas vezes sua jornada para acompanhar jogos, consultar odds, verificar resultados ou realizar novas apostas. Quando somadas ao longo de semanas, meses e anos, essas interrupções representam milhares de horas de baixa concentração, retrabalho, erros operacionais e redução de produtividade.

Esse custo dificilmente aparecerá em uma linha específica da Demonstração do Resultado do Exercício da companhia. Ele ficará distribuído, um pouco na eficiência, um pouco na produtividade, um pouco na qualidade, um pouco no atraso, um pouco no cliente que deixou de ser atendido. É exatamente assim que as perdas mais perigosas acontecem.

O crescimento das apostas esportivas traz exatamente para dentro das organizações endividamento, ansiedade, busca por recuperação rápida de perdas e pressão emocional. Ignorar esse cenário não reduz o risco, apenas impede que ele seja gerenciado.

Sempre que surge um novo risco, existe a tentação de responder com proibições e, raramente funciona, porque empresas maduras não governam pessoas, mas riscos. Essa é a essência da governança de prevenção de perdas, que não atua apenas quando a perda acontece, mas, atua antes.

Durante muitos anos, a missão da prevenção de perdas foi proteger produtos e hoje ela precisa proteger resultados. Isso significa compreender que as perdas mais relevantes das organizações nem sempre desaparecem do estoque, muitas acontecem na produtividade, qualidade das decisões, cultura e reputação.

E coloco uma provocação para as lideranças: pouquíssimas empresas medem perdas comportamentais. Talvez porque seja mais fácil contar produtos do que compreender pessoas. Mas o futuro da governança de prevenção de perdas passa exatamente por essa evolução.

As organizações que continuarem olhando apenas para caixas, mercadorias e inventários protegerão apenas parte do seu resultado. Já, as que aprenderem a identificar e governar riscos comportamentais protegerão aquilo que realmente sustenta qualquer negócio: sua capacidade de gerar valor de forma consistente.

*É CEO da AOzawa Consultoria, especialista em Prevenção de Perdas e Governança, consultor com mais de 40 programas de prevenção de perdas implantados com sucesso, palestrante, professor da FIA Business School e autor do livro “Pentágono de Perdas: Transformando Perdas em Lucros”

SOBRE A AOZAWA CONSULTORIA (www.aozawaconsultoria.com.br)

Fundada em 2014, a AOzawa Consultoria atua na estruturação de Governança de Margem para empresas de varejo e distribuição. Por meio do método Pentágono de Perdas, integra pessoas, processos, auditoria, tecnologia e indicadores, apoiando organizações na transformação de vulnerabilidades operacionais em eficiência e rentabilidade sustentável.

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