Estudo mostra que a macambira-de-flecha cria microambientes capazes de sustentar dezenas de espécies vegetais em afloramentos rochosos do semiárido nordestino
Fabrício Brasiliano – Agecom/UFRN
Em meio às rochas expostas na Caatinga, onde o calor intenso, a escassez de água e a falta de solo tornam a sobrevivência um desafio, uma bromélia tem desempenhado um papel essencial para a manutenção da vida. A Encholirium spectabile, conhecida popularmente como macambira-de-flecha ou macambira-de-lajedo, foi identificada como uma espécie capaz de criar condições para o desenvolvimento de diversas plantas em um dos ambientes mais severos do país.
A descoberta é resultado do estudo A complexidade estrutural associada a uma bromélia rupícola aumenta a riqueza de plantas vasculares em afloramentos rochosos semiáridos, liderado pelo biólogo e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Jaqueiuto Jorge, publicado na revista internacional Perspectives in Plant Ecology, Evolution and Systematics, uma importante revista científica da área de Ecologia Vegetal.

A pesquisa analisou 155 touceiras da bromélia distribuídas em 22 afloramentos rochosos do Rio Grande do Norte e da Paraíba ao longo das estações seca e chuvosa. Durante o levantamento, os pesquisadores registraram 35 espécies de plantas vasculares pertencentes a 20 famílias botânicas vivendo associadas a macambira, evidenciando que quanto maior era a estrutura da bromélia, maior também era a riqueza de espécies presentes.
Segundo Jaqueiuto, a motivação para investigar essa relação surgiu ainda no início da graduação, quando percebeu que essas bromélias exercem uma influência muito maior sobre o ambiente do que se imaginava. “Os afloramentos rochosos estão entre os ambientes mais difíceis de serem colonizados no planeta. Quando observamos esses locais no semiárido, percebemos que, no centro dessa dinâmica, estavam as macambiras, facilitando a vida de outras espécies. Elas sobrevivem onde quase nada consegue e acabam criando condições para que outras plantas e animais também vivam ali”, explica.
Uma engenheira da natureza
Ao contrário das bromélias conhecidas por armazenarem água, a macambira-de-flecha atua principalmente por sua estrutura física. Suas folhas formam grandes rosetas que acumulam matéria orgânica, retém sementes trazidas pelo vento ou por animais e oferecem abrigo contra as condições extremas do ambiente. Com isso, espécies de diferentes portes, desde pequenas ervas até árvores como o umbuzeiro e o mulungu, conseguem germinar e crescer sobre os afloramentos rochosos.

“O que mais nos surpreendeu foi perceber que a importância dessas bromélias vai muito além da fauna. Elas também sustentam uma enorme diversidade de plantas. Sem essa arquitetura criada pela macambira, muitas espécies simplesmente não conseguiriam se estabelecer nesses ambientes”, destaca o pesquisador.
Os resultados mostraram que grandes touceiras da espécie podem abrigar mais que o dobro da riqueza de plantas encontradas em touceiras bromélias menores, reforçando o papel da complexidade estrutural na manutenção da biodiversidade.
Mais de uma década entre espinhos e calor
Chegar às conclusões exigiu anos de trabalho de campo. As expedições ocorreram entre 2021 e 2023, mas fazem parte de uma linha de pesquisa construída ao longo de mais de uma década. O trabalho exigiu enfrentar temperaturas elevadas, longas caminhadas sobre rochas, terrenos escorregadios, espinhos das próprias macambiras e a presença constante de animais como vespas e serpentes. “É um ambiente extremamente desafiador. Durante o dia faz muito calor e, à noite, a temperatura cai bastante. Além disso, as macambiras possuem espinhos muito resistentes e há diversos animais associados a elas, como vespas e jararacas. Tudo isso exige muito cuidado durante as coletas”, relata Jaqueiuto.
E se essas bromélias desaparecerem?
Além de ampliar o conhecimento sobre a ecologia da Caatinga, o estudo chama atenção para a conservação desses ambientes. Entre as principais ameaças aos afloramentos rochosos estão a mineração, a retirada de rochas ornamentais, a expansão da infraestrutura e os impactos das mudanças climáticas. Segundo o pesquisador, a perda das bromélias pode desencadear uma reação em cadeia sobre toda a biodiversidade local.

“Quando essas bromélias desaparecem, muitas espécies que dependem delas também entram em declínio. Não estamos falando apenas de plantas, mas de animais, polinizadores e dos serviços ecossistêmicos que beneficiam diretamente as pessoas”, ressalta. Esses serviços incluem a manutenção de polinizadores, a produção de frutos por espécies nativas e o equilíbrio ecológico dos afloramentos rochosos.
Ciência do semiárido para o mundo
Para Jaqueiuto, publicar os resultados em uma revista científica de alcance internacional representa mais do que um reconhecimento acadêmico. “A Caatinga ainda é um bioma pouco conhecido e, muitas vezes, negligenciado. Publicar esse tipo de pesquisa em uma revista de alto impacto ajuda a mostrar ao mundo a riqueza desses ambientes e reforça a necessidade de políticas voltadas para sua conservação”, explica.
A pesquisa também abre caminho para novos estudos. A equipe pretende agora investigar quais serviços ecossistêmicos são oferecidos pelas espécies que vivem associadas às bromélias e quais seriam os impactos ambientais, sociais e econômicos caso essas relações fossem interrompidas.
Jaqueiuto deixa um convite para que mais pessoas conheçam esses ambientes. “Os afloramentos rochosos da Caatinga são de uma beleza extraordinária. As flores e os espinhos possuem uma rede de relações que sustenta plantas, animais e até o ser humano. Conhecer esses lugares é também compreender a importância de preservá-los”. LEIA NO PORTAL UFRN





