O que torna a promessa das Bets tão sedutora para uma sociedade?

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O vício em Bets não pode ser tratado como se fosse resultado de pessoas adultas fazendo escolhas ruins. Essa é uma explicação bobinha demais, rasa e mal feita.

Há mais de 40 mil anos, nós ganhamos uma tecnologia que tornou as nossas capacidades cognitivas muito mais sofisticadas: a imaginação.

Ou seja, estou falando da forma como o ser humano cria sentido para a realidade. A racionalização não dá conta de explicar por que um coletivo inteiro passa a se comportar de determinada maneira, o imaginário coletivo, sim.

Com o racionalismo moderno dos séculos XVII e XVIII, a imaginação virou a tia louca da ciência: todo mundo sabia que ela estava ali, que participava da casa, mas ninguém queria deixá-la sentar à mesa das grandes decisões. Deixa o imaginário pra lá! Além disso, agora estamos todos muito animados com as IAs, quem precisa da imaginação. 

E veja: eu não sou negacionista da IA muito menos da ciência. Mas precisamos lembrar que, desde que o ser humano percebeu que o tempo passa, que tudo se transforma e que a morte é inevitável, nossa imaginação passou a criar rituais, mitos, religiões e símbolos para amenizar a “angústia primordial” diante da finitude e, ao mesmo tempo, dar sentido à vida.

E toda vez que há um esvaziamento mitológico e simbólico na sociedade, há um aumento da angústia primordial coletiva. É o que estamos vivendo agora. E essa angústia precisa ser preenchida ou amenizada de alguma forma. Isso não opera apenas pela razão; opera também pelo simbólico, pelo emocional e pelo inconsciente coletivo.

O que as bets vendem é muito maior do que a aposta. Elas vendem um falso ritual de passagem e transcendência para uma vida igual àquela que a pessoa vê no Instagram.

Se a sociedade já não acredita mais nos rituais nem nos caminhos lentos de construção de sentido, mas ainda precisa encontrar alguma saída para vencer uma vida vazia de significado, então, driblar as dificuldades junto com Neymar para fazer um gol de placa (sem cair e chorar), começa a parecer uma boa ideia. Afinal, no imaginário brasileiro, o futebol ainda ocupa o lugar simbólico do herói nacional. 

Dentro dessa narrativa coletiva, os papéis arquetípicos ficam muito claros:

A população aparece como a vítima em queda. Não porque seja incapaz de raciocinar, mas porque está vulnerável dentro de um sistema que explora nossas angústias mais primitivas. Os influenciadores aparecem como os falsos guias, porque se apresentam como quem conhece o caminho, como quem venceu e agora vai mostrar aos outros como vencer também. Só que, muitas vezes, esse guia não conduz para uma travessia; conduz para um labirinto que endivida, enlouquece e mata.

O Estado aparece como o guardião ausente, porque deveria criar limites, regular, impedir abusos e chegar antes do dano coletivo. Mas chega tarde, chega fraco, chega confuso ou chega atravessado por interesses econômicos. E as empresas de bets aparecem como o monstro devorador disfarçado de oportunidade. O monstro contemporâneo não tem cara de monstro. Ele é divertido e ainda oferece dinheiro e oportunidade. 

Então, quando eu pergunto que tipo de mundo torna as Bets tão sedutoras, a resposta não está na racionalização individual quando o dano é coletivo. A resposta está no tipo de sociedade que perdeu confiança nos seus caminhos de futuro. 

Uma sociedade em que trabalhar parece insuficiente, estudar parece lento, empreender parece exaustivo, a política parece distante, a religião já não inspira confiança, a comunidade está dividida, a família muitas vezes está sobrecarregada, e as redes sociais mostram o tempo inteiro que todo mundo parece estar vencendo, menos você.

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