Enquanto divórcios batem recorde, metade da população escolhe ficar sozinha. E uma pergunta silenciosa cresce entre milhões: será que aprendemos a amar errado?
O PARADOXO CONTEMPORÂNEO
Em 2023, foram 440,8 mil divórcios no Brasil. A duração média do casamento caiu de 16 para 13 anos em apenas uma década. Ao mesmo tempo, 52% dos brasileiros vivem em solteirice muitos deles por escolha deliberada. Esses números não falam de fracasso amoroso. Falam de transformação.
De pessoas que estão rejeitando o que aprenderam e buscando novas formas de estar junto. É neste cenário que o trisal relacionamento entre três pessoas com vínculos genuínos entre todos deixa de ser tabu e se torna questão legítima para millões que se perguntam: por que continuar fingindo que um modelo não funciona quando há outras possibilidades?
QUANDO OS NÚMEROS REVELAM MUDANÇA
Os dados são claros. Para cada 100 casamentos, ocorrem 45,7 divórcios. E 52% das pessoas que citam infidelidade como razão de separação talvez estejam, na verdade, revelando incompatibilidade estrutural entre o que promete a monogamia e o que as pessoas realmente conseguem sustentar.
Mas há mais. Pesquisa Happn (2025) mostra que apenas 45% das mulheres e 39% dos homens relatam contentamento sexual elevado. Se menos de metade das pessoas está satisfeita, a questão não é mais “trisal funciona?” é “por que continuamos com um modelo que funciona para menos de 50% das pessoas?” Enquanto isso, 34% dos solteiros brasileiros dizem que preferem estar sozinhos a estar com alguém errado. Outros 27% descrevem estar em “relacionamento consigo mesmos” inverstindo tempo em autoconhecimento, crescimento, liberdade. Isso não é solidão. Isso é integridade.
A HONESTIDADE COMO ESTRUTURA
“Relacionamentos funcionam diferentemente quando você para de fingir,” é o ponto de análise de Wantuir Rock, psicólogo e Sexólogo com foco em Terapia de Casal e em dinâmicas contemporâneas de relacionamento. Para Rock, existe um momento crucial em que as pessoas conseguem nomear, pela primeira vez, o que realmente desejam. “E frequentemente, o que descrevem não tem nada a ver com o que aprenderam que deveria desejar.” Wantuir Rock reflete sobre o paradoxo que observa em seu consultório: pessoas que vivem trisal frequentemente descrevem maior alinhamento pessoal do que aquelas que mantêm relacionamentos monogâmicos onde há negação estrutural de desejos, identidade ou complexidade.
“Isso não significa que trisal é solução universal,” ressalva. “Mas significa que para determinadas pessoas, relacionamentos estruturados em torno de verdade por mais complexa que seja funcionam melhor que aqueles que exigem conformidade.”
A PERSPECTIVA HISTÓRICA
O Medico e Psicanalista Flávio Gikovate, figura histórica da psicoterapia brasileira, oferecia observação relevante que ressoa ainda hoje: “O amor une as pessoas, mas o que garante a continuidade da relação são suas afinidades.” Esta frase simples questiona narrativas centenárias sobre relacionamentos. Se afinidade é o elemento estrutural que sustenta relacionamentos compatibilidade de valores, projetos, forma de estar por que organizamos relacionamentos primariamente em exclusividade emocional e sexual?
Talvez porque nunca tivemos alternativas nomeadas. Talvez porque trisal, relacionamentos abertos, e outras formas só agora ganham visibilidade o suficiente para serem consideradas possibilidades reais.
TRISAL: QUANDO A REALIDADE PRECEDE A LEI
Trisal não é ficção. É realidade que a lei brasileira ainda está aprendendo a nomear. Em 2023, Rio Grande do Sul reconheceu a primeira união estável poliafetiva do país. Uma criança nasceu com três nomes na certidão de nascimento. Três pais. Três responsáveis. Três corações. Quando instituições públicas começam a reconhecer o que já existe socialmente, algo mudou fundamentalmente. A realidade não espera pela legislação. E redes sociais amplificaram isto: pessoas vivendo trisal compartilham rotinas, desafios, alegrias normalizando para milhões o que era invisível há poucos anos.
A PERGUNTA QUE EMERGE
Existe um ponto de inflexão em transformações sociais. É quando deixa de ser pergunta “isso é possível?” e passa a ser “por quanto tempo continuaremos fingindo que o modelo antigo funciona?” Para relacionamentos no Brasil, talvez estejamos chegando neste ponto. 440 mil divórcios anuais. 52% de solteirice por escolha. Menos de 45% de satisfação sexual. 34% preferindo solidão a relacionamentos inadequados. Estes números não falam de crise de relacionamentos. Falam de crise de modelos que deixaram de servir para segmentos crescentes da população.
FUTURO: MAIS HONESTIDADE, MENOS FICÇÃO
“É possível que gerações futuras enxerguem os relacionamentos de maneira mais flexível, compreendendo que autenticidade emocional e compromisso afetivo podem caminhar juntos.” sugere Wantuir Rock. “Talvez entendam que é possível estar completamente si mesmo e estar completamente presente com outro ou com outros. Que relacionamentos funcionam melhor quando construídos em torno de verdade sobre quem você realmente é, não em promessas que ninguém consegue sustentar.”
Não se trata de trisal se tornar norma. Trata-se de reconhecimento: cada pessoa encontra, através de experimentação e reflexão, a estrutura relacional que melhor serve suas necessidades. Monogamia funciona para quem funciona. Relacionamentos abertos funcionam para quem funciona. Trisal funciona para quem funciona. E solidão, quando escolhida, também. O que está mudando não é o relacionamento em si. É a permissão para ser honesto sobre o que realmente funciona para você.
REALINHAMENTO, NÃO REJEIÇÃO
O Brasil não está rejeitando o amor. Está realinhando expectativas com realidades. Está descobrindo que autenticidade emocional mesmo que complexa, mesmo que exija comunicação sofisticada, mesmo que desafie normas sociais é mais sustentável que conformidade.
Cada pessoa que escolhe estar sozinha em vez de estar com alguém errado. Cada pessoa que nomeia desejo sincero em vez de seguir script social.
Cada pessoa que busca estrutura relacional alinhada com quem realmente é.
Todos são parte de transformação silenciosa que números já revelam, mas que cultura ainda está aprendendo a nomear. E talvez isto seja o verdadeiro significado de amar em 2026: ter coragem de ser honesto sobre o que você realmente precisa. E liberdade para encontrar quem deseja o mesmo.
REFERÊNCIAS IBGE.
Estatísticas do Registro Civil 2024. Portal Making Of. Pesquisa Nacional sobre Relacionamentos, 2025. Happn Research. Estudo de Comportamento Sexual e Satisfação em Relacionamentos, 2025. Gikovate, Flávio. Ensaios sobre o Amor e a Solidão. MG Editores Associados, 1998. Rio Grande do Sul. Reconhecimento de União Estável Poliafetiva, 2023.





