A Boa Morte

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Crédito: Daniel Derevecki

*Daniel Medeiros

Para Spinoza, o corpo não é dissociado da mente, e é ele quem é afetado pelo mundo, informando para a Razão do que sente, tristeza ou alegria. Cabe à mente, então, compreender as causas dos afetos para direcionar o corpo para os afetos alegres. Essa é a ética proposta pelo pensador do século 17, uma ética da vida e para a vida, da alegria e da escolha. Cerca de um século antes, Michel de Montaigne, em seus Ensaios, também entendia que é o corpo quem dita nossa relação com o mundo e nossa vontade de estar nele ou de querer ir embora: “Quando não me sinto bem, as alegrias da vida me parecem menos valiosas, tanto mais quanto não estou em condições de usufruí-las a morte se me afigura menos temível”.

Quando o corpo não é mais capaz de proporcionar um estado de alegria, quando não consegue mais afastar as dores e os sofrimentos, quando não permite o usufruto do bom da vida, então é hora de assumir outra expressão na natureza. Partir. A vida, afinal, é o conjunto de ações que realizamos no tempo, e ficam somente as marcas dessa passagem no mundo e na memória dos que conviveram ou conheceram a nossa existência. Quanto mais intensas, variadas, bem curtidas essas vivências, mais valeram os anos de nossa passagem. Quando o corpo não for mais capaz de sentir e de se importar, por que temer a morte?

Depois de Montaigne, o filósofo alemão Martin Heidegger refletiu sobre essa questão e afirmou que a morte não é um evento futuro, mas uma característica estrutural da existência humana: estamos sempre a caminho da morte, a sua possibilidade mais própria. Assim, disse ele, a morte, em sua radicalidade, é uma experiência que “desvela” a existência humana e a torna mais valiosa, ao revelar a sua finitude, singularidade e a necessidade de assumir a própria vida.

Hoje, vivemos um tempo de negação da morte, de obsessão pela vitalidade e a visualidade de um corpo sem marcas. Os velhos que se deixam envelhecer, aceitando o declínio da vida, buscando outra relação com o tempo e com os propósitos, são vistos como um insulto e uma mancha na paisagem. O etarismo é a negação de uma condição que, ao invés de nos paralisar, deveria funcionar como um estímulo para que aproveitemos todos os momentos, os de maior vitalidade com força, os de declínio, com calma, os momentos finais, com serenidade. Como dizia Montaigne: “O remédio do homem vulgar consiste em não pensar na morte. Mas quanta estupidez precisa para tal cegueira”.

Em vários países, o direito de cada cidadão, na condição de fim de vida, de decidir a boa morte tem sido amplamente discutido pela sociedade, particularmente em face do envelhecimento geral da população. No Brasil, o assunto ainda engatinha, mas já há rumores e agitos. Afinal, se viver é uma bênção, decidir a hora de que “já deu” deveria ser, igualmente, um privilégio nosso, pois a morte é parte da vida, da nossa vida. Ou, citando mais uma vez o mestre Montaigne: “Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração ou no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante”.

*Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor de Humanidades no Curso Positivo. @profdanielmedeiros

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